Por Dra Thayse Santos
@dra.thaysesantos
@veridiana.mediciapericial
Uma das expressões mais utilizadas na Medicina Pericial é, também, uma das menos conhecidas pela população: capacidade laboral. Mas, afinal, o que ela significa? De forma simples, capacidade laboral é a aptidão que uma pessoa possui para exercer sua atividade profissional com segurança, autonomia e desempenho compatível com as exigências da função que ocupa. Pode parecer um conceito simples, mas ele vai muito além da presença ou da ausência de uma doença.
Imagine dois trabalhadores que recebem exatamente o mesmo diagnóstico: uma lesão no ombro. Um deles trabalha em um escritório, utilizando principalmente o computador. O outro é pedreiro e precisa levantar peso, carregar materiais e realizar movimentos repetitivos durante toda a jornada. Embora a doença seja a mesma, o impacto sobre o trabalho pode ser completamente diferente.
É por isso que, na perícia médica, o foco não está apenas no diagnóstico. O que realmente importa é compreender como aquela condição interfere na capacidade da pessoa de exercer sua profissão. Ela consegue realizar as atividades exigidas pelo cargo? Consegue manter o mesmo rendimento? Há risco para sua própria segurança ou para a segurança de outras pessoas? A limitação é temporária ou permanente? Existe possibilidade de tratamento, adaptação ou reabilitação?
Essas são algumas das perguntas que orientam a avaliação do médico perito. Outro aspecto importante é que capacidade laboral não significa perfeição física. Muitas pessoas convivem com doenças crônicas, utilizam medicamentos continuamente e, ainda assim, desempenham suas atividades profissionais de forma plena. Da mesma forma, existem situações em que uma condição de saúde aparentemente simples pode impedir o exercício de determinada profissão. Um pequeno tremor nas mãos, por exemplo, pode ter pouca repercussão para algumas atividades, mas representar uma limitação significativa para um cirurgião, um dentista ou um relojoeiro.
Da mesma maneira, alterações na visão podem afetar de forma muito diferente um motorista profissional e um trabalhador administrativo. Cada profissão possui exigências próprias. Cada organismo responde de maneira diferente ao adoecimento. E cada pessoa deve ser avaliada de forma individual.
É justamente por isso que a Medicina Pericial não trabalha com respostas prontas. Ela analisa a relação entre a condição de saúde, as limitações funcionais e as exigências do trabalho exercido. Mais do que avaliar doenças, o médico perito avalia pessoas em seu contexto de vida e de trabalho. Ao compreender esse conceito, também entendemos uma das principais funções da perícia médica: oferecer uma análise técnica, objetiva e fundamentada sobre a capacidade funcional de cada indivíduo, contribuindo para decisões mais seguras e justas.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é apenas “Qual é a doença?”. A verdadeira pergunta é: “Essa pessoa consegue exercer sua profissão da forma como ela exige?” É essa resposta que orienta o trabalho da Medicina Pericial.
Possuir essa compreensão é fundamental para a sociedade porque informação também é cuidado. Nos encontramos na próxima coluna.
Dra. Thayse Santos, é médica especialista e atuante nas áreas de Perícia Médica Judicial, saúde mental, beleza e qualidade de vida. Atua como perita médica junto ao Poder Judiciário, realizando avaliações técnicas em processos judiciais com enfoque ético, humanizado e baseado em evidências científicas.
Esta coluna busca aproximar o público do universo da perícia médica por meio de uma linguagem clara, acessível e acolhedora, traduzindo temas técnicos para o cotidiano das pessoas.



