Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Existe uma idade em que eu percebo que passei boa parte da vida tentando provar aos meus pais que fiz boas escolhas. Como se cada decisão precisasse carregar uma espécie de justificativa: o curso, o trabalho, o relacionamento, a cidade onde moro, o jeito como educo meus filhos. Às vezes, nem estou mais diante deles, mas ainda escuto, dentro de mim, a pergunta: “Será que eles vão aprovar?”
Com a proximidade do Dia dos Pais, essas questões podem ficar ainda mais presentes. As vitrines se enchem de mensagens sobre gratidão, os anúncios falam de homenagens, as famílias se reúnem. E, no meio de tudo isso, talvez eu sinta amor, saudade, gratidão, ressentimento, culpa ou uma mistura difícil de nomear.
Nem toda história com um pai é simples. Há pais presentes e pais ausentes. Pais que fizeram o melhor que conseguiram e pais que deixaram marcas profundas. Há relações afetuosas, relações distantes e relações que só se tornam possíveis quando existem limites bem definidos. Por isso, amar não significa fingir que nada aconteceu. Também não significa permanecer disponível para qualquer exigência em nome do vínculo familiar.
Eu penso, por exemplo, naquele filho que recebe uma ligação do pai perguntando quando ele pretende “tomar jeito” e voltar para a profissão que a família considera segura. Ele trabalha com algo de que gosta, consegue pagar suas contas e sente orgulho do caminho que construiu. Ainda assim, depois da ligação, passa a noite inquieto, imaginando se decepcionou o pai.
Ou naquela filha que escolhe não se casar, não ter filhos ou terminar uma relação que todos aprovavam. Ela sabe que precisa seguir adiante, mas sente que cada escolha pessoal será interpretada como uma afronta. Então, começa a explicar demais, pedir desculpas demais e consultar a família antes de escutar o próprio desejo.
Eu reconheço como pode ser difícil deixar de buscar esse reconhecimento. Quando somos crianças, o olhar dos pais parece uma espécie de espelho do nosso valor. Queremos ser vistos, elogiados, escolhidos. E, quando esse reconhecimento não vem, podemos passar muitos anos tentando conquistá-lo por meio do desempenho, da obediência ou da renúncia.
Mas chega um momento em que eu preciso fazer uma pergunta honesta: estou escolhendo porque isso faz sentido para mim ou porque ainda tento evitar a desaprovação deles?
Essa pergunta não precisa ser feita com raiva. Ela pode nascer com delicadeza, como quem abre uma janela em um quarto há muito tempo fechado. Eu posso agradecer o que recebi sem transformar a gratidão em dívida. Posso reconhecer os sacrifícios dos meus pais sem entregar a eles o comando da minha vida. Posso amá-los e, ao mesmo tempo, dizer: “Eu entendo que você pense assim, mas essa decisão é minha.”
Talvez essa seja uma das formas mais maduras de amor: não exigir que o outro viva de acordo com as minhas expectativas e também não abandonar a própria verdade para ser aceito. A autonomia afetiva começa quando eu consigo permanecer ligado sem me apagar; quando escuto a opinião dos meus pais, mas não confundo a opinião deles com uma sentença sobre quem sou.
E há uma virada importante nisso tudo: quando eu deixo de viver para agradá-los, não necessariamente me torno mais distante. Muitas vezes, torno-me mais verdadeiro. As conversas deixam de ser conduzidas por medo, e a presença deixa de ser uma performance. Eu não preciso mais oferecer uma versão cuidadosamente editada de mim para merecer amor.
Neste Dia dos Pais, talvez eu possa homenagear essa relação de um modo mais inteiro. Com um abraço, uma ligação, uma lembrança ou, quando for necessário, com um limite que proteja a minha paz. Porque amar meus pais não deveria exigir que eu abandone a pessoa que estou me tornando.
A aprovação deles pode ser bonita, mas não pode ser a medida de todas as minhas decisões. No fim, amadurecer é aprender a carregar o amor recebido sem permitir que ele pese mais do que a minha própria vida.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
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