Por Fabiana Ribeiro
@fabianaribeirodos805
É correto afirmar que ainda na vida adulta, existe uma criança que continua vivendo dentro de nós. Ela aparece em nossas lembranças, brincadeiras que por vezes despertam alegria, nos medos que aparecem sem explicação, na necessidade de ser reconhecido e cuidado, nos sentimentos de inadequação e quando nos encantamos, criamos e imaginamos.
Falar sobre nossa criança interior é falar sobre experiências emocionais que construímos ao longo da infância e sobre a maneira como elas podem continuar dialogando com a nossa vida adulta. A infância não determina de forma absoluta quem seremos, mas participa profundamente da construção da nossa identidade, de nossos vínculos, das nossas percepções acerca de nós mesmos, e da maneira como lidamos com nossas emoções.
Na infância, aprendemos por meio das relações e experiências o modo como podemos atuar neste mundo, se podemos confiar, se nossas emoções podem ser expressas, se podemos errar, pedir ajuda, experimentar, experienciar, criar e ser acolhido. Quando as necessidades emocionais não são reconhecidas, algumas experiências ficam simbolicamente registradas e podem reaparecer posteriormente em nossa vida adulta, influenciando em nossos relacionamentos, nossas escolhas e nas formas de reagir a determinadas situações da vida cotidiana.
Mas, é importante ressaltar que esta condição determinista não deve ser considerada condicionante, a infância perpassa nossa vida, construindo nossa história, mas como seres em constante desenvolvimento, podemos ressignificar experiências, construir novos vínculos e encontrar novas formas de compreender nossas vivências.
Dentro deste cerne a Arteterapia, encontra uma possibilidade de atuação extremamente potente e compreende o desenho infantil, como uma ferramenta importante de comunicação. Através do desenho tanto a criança, quanto o adulto representa acontecimentos, experiências, objetos, desejos, fantasias, medos que são ou foram significativos em sua vida, construindo possibilidades de expressão. Quando não há compreensão dos sentimentos, ou não há a verbalização dos mesmos, a imagem, a escolha de cores, o uso do espaço na folha, entre outros elementos são considerados, em conjunto com o contexto, a idade e a história de vida da criança ou adulto, a forma de expressar se e aquilo que ela própria atribui a sua produção devem ser considerados para que o arteterapeuta possa perceber as instâncias psíquicas e emocionais que precisam de atenção, e para a promoção do autoconhecimento e desenvolvimento humano. O questionamento em setting terapêutico deve estar pautado no significado da imagem produzida, e através deste significado, as intervenções terapêuticas são conduzidas.
Desta forma a criança ou adulto podem posteriormente modificar, acrescentar, realizar colagens de elementos diversos que vão atribuir novos significados à produção anterior, ressignificando este contexto dentro da sua produção e construindo uma nova narrativa para aquilo que estava sendo difícil de elaborar. Esta experiência aparentemente simples pode carregar uma mensagem emocional extremamente importante: é possível transformar!
Por vezes, em algum momento de nossa vida adulta, uma reação a algum acontecimento presente nos parece desproporcional, no entanto, esta reação está atrelada a uma experiência emocional antiga que aciona “gatilhos” aterrados em nossa psique.
Porém, convém ressaltar que nem toda dificuldade adulta é originária da nossa infância, mas que nossa história está participando da maneira como interpretamos e sentimos o presente. Destarte, é necessário que o Arteterapeuta crie um espaço para que estas experiências sejam revisitadas simbolicamente e que este passado seja elaborado sobre um novo prisma. Compreendendo que há necessidades, sentimentos e experiências que foram importantes e precisam ser acolhidos, percebidos e ressignificados.
Na arteterapia, por meio do desenho e outras produções artísticas, o adulto pode reencontrar imagens da sua própria infância e reconstruir memórias, sentimentos e experimentar dialogar com diferentes fases da sua vida, resgatando o que estava incompreendido ao longo de sua existência. A arte permite que a criança tenha voz e que ela se “veja”, seja criança, criança ou a criança interior do adulto, compreendendo que sua história não precisa ser apagada e sim reestruturada e compreendida. É a Arteterapia mostrando que a criança interior pode continuar existindo dentro de nós, nos ensinando a continuarmos sendo criativos, espontâneos, curiosos, libertando se de amarras e crenças limitantes e construindo nossa história com mais liberdade e possibilidades.
Fabiana Ribeiro é pedagoga, psicopedagoga, arteterapeuta, Neuroeducadora, pós graduanda em Análise do Comportamento ABA, Ludicidade e Artes, Psicologia Ativa, gestão de Pessoas e Saúde no Trabalho, graduanda em Terapia Ocupacional, palestrante, apresentadora do Pod Cast “Entre Elas e Saberes” da Rede Tríade TV e do Programa das Brabas da ONG Colo de Mãe.



