Por Charles Pires
Pensamos no futuro, antecipamos problemas, imaginamos possibilidades e tentamos evitar aquilo que pode nos machucar. Em certa medida, a preocupação pode até nos ajudar a tomar decisões e nos preparar.
Mas existe uma linha silenciosa entre se preparar para a vida e tentar controlar tudo o que pode acontecer nela.
É quando ultrapassamos essa linha que a preocupação deixa de ser cuidado e começa a se transformar em prisão.
Talvez você conheça essa sensação.
Você deita para dormir, mas a mente continua trabalhando.
“E se acontecer alguma coisa?”
“E se eu tomar a decisão errada?”
“E se eu não conseguir?”
Uma pergunta termina e outra começa.
O corpo está parado, mas a mente parece estar correndo.
Muitas vezes, acreditamos que estamos procurando uma solução. Pensamos mais porque queremos resolver mais. Tentamos prever todos os cenários porque acreditamos que, se pensarmos o suficiente, conseguiremos impedir que algo ruim aconteça.
Mas nem todo pensamento produz uma solução.
Alguns apenas produzem mais pensamentos.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, observamos a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Um acontecimento não determina sozinho aquilo que sentimos; a maneira como interpretamos esse acontecimento também influencia nossa reação.
Imagine alguém que não recebe uma resposta de uma pessoa importante.
O fato é simples: a mensagem não foi respondida.
Mas a mente pode rapidamente construir uma história:
“Ela está chateada comigo.”
“Eu fiz alguma coisa errada.”
“Ela não gosta mais de mim.”
A ansiedade aparece e, então, começamos a procurar evidências para confirmar aquilo que imaginamos.
É importante lembrar: um pensamento pode parecer verdadeiro sem necessariamente ser verdade.
Sentir medo não significa que existe perigo.
Sentir culpa não significa necessariamente que fizemos algo errado.
E imaginar que algo acontecerá não significa que aquilo irá acontecer.
Por isso, uma pergunta simples pode ajudar:
“O que eu sei de fato e o que minha mente está imaginando?”
Essa diferença cria um espaço entre o pensamento e a reação. E, nesse espaço, existe a possibilidade de escolha.
A filosofia, há séculos, também nos convida a refletir sobre aquilo que está e não está sob nosso controle.
Queremos garantias sobre o futuro. Queremos saber se dará certo antes de tentar, se não seremos rejeitados antes de nos envolver e se não iremos sofrer antes de escolher.
Mas a vida não oferece esse tipo de garantia.
Viver também significa aprender a conviver com a incerteza.
Isso não significa deixar de ter cuidado. Significa reconhecer os limites entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende.
E, quando a preocupação se torna repetitiva e difícil de interromper, talvez seja necessário olhar além do pensamento atual.
É nesse ponto que o processo terapêutico pode contribuir.
Na Terapia de Reprocessamento Generativo, o trabalho terapêutico busca acessar e ressignificar conteúdos e padrões emocionais que continuam influenciando a maneira como a pessoa percebe a si mesma, os outros e as situações que enfrenta.
Às vezes, uma preocupação aparentemente relacionada ao presente desperta uma sensação muito mais antiga.
A situação é nova.
Mas a sensação é conhecida.
O medo de ser abandonado.
A necessidade de controlar tudo.
A sensação de não ser suficiente.
O receio constante de decepcionar alguém.
Em alguns casos, essas reações podem estar relacionadas a experiências que ensinaram a pessoa, em algum momento da vida, a permanecer sempre em alerta.
Talvez você tenha aprendido a se preocupar porque precisava estar preparado para o pior.
Talvez tenha aprendido a controlar porque confiar parecia perigoso.
Talvez tenha aprendido a antecipar problemas porque ser surpreendido já foi doloroso demais.
Em algum momento, aquela estratégia pode ter sido útil.
Mas uma estratégia que nos protegeu no passado pode se transformar em uma prisão quando continua comandando nossa vida no presente.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“Por que eu me preocupo tanto?”
Mas também:
“O que minha preocupação está tentando proteger?”
Essa pergunta muda o olhar.
Em vez de lutar contra a própria mente, começamos a escutá-la.
E escutar não significa acreditar em tudo o que ela diz.
Significa observar.
Questionar.
Compreender.
Escolher.
Talvez você não consiga impedir que pensamentos preocupantes apareçam. Mas pode aprender a não entregar a todos eles o controle das suas decisões.
A mente pode apresentar possibilidades. Quem decide o caminho é você.
Uma vida mais tranquila não é necessariamente aquela em que nunca sentimos medo, dúvida ou preocupação.
Talvez seja aquela em que aprendemos a sentir tudo isso sem permitir que esses sentimentos conduzam cada passo que damos.
Porque preocupação, quando usada como cuidado, pode nos preparar.
Mas quando se transforma em uma tentativa de controlar o incontrolável, pode nos impedir de viver.
Às vezes, cuidar de si não significa pensar mais sobre o que pode acontecer.
Significa aprender quando já pensamos o suficiente e permitir que a vida aconteça.



