Por Charles Pires
Existe uma pergunta que algumas pessoas fazem tantas vezes que ela acaba se tornando automática:
“O que os outros vão pensar de mim?”
Antes de dizer não, pensam.
Antes de tomar uma decisão, consultam a opinião de alguém.
Antes de expressar o que sentem, imaginam como aquilo será recebido.
E, muitas vezes, deixam de fazer o que realmente desejam para evitar decepcionar alguém.
Aparentemente, pode parecer apenas gentileza, educação ou preocupação com os outros.
Mas, quando a necessidade de agradar se torna constante, existe um preço.
E, às vezes, esse preço é a própria identidade.
A pessoa que tenta agradar todo mundo aprende, pouco a pouco, a observar as necessidades dos outros antes das próprias. Ela percebe o humor das pessoas, antecipa conflitos, evita discussões e procura dizer aquilo que acredita que será bem recebido.
O problema é que, nessa tentativa de manter todos satisfeitos, pode começar a perder contato com uma pergunta fundamental:
“E eu? O que eu quero?”
Dizer “sim” quando queria dizer “não”.
Aceitar um convite quando precisava descansar.
Concordar com uma opinião apenas para evitar conflito.
Permanecer em uma relação por medo de magoar alguém.
Assumir responsabilidades que não deveria assumir.
Tudo isso pode parecer pequeno quando acontece uma vez.
Mas, quando se repete durante anos, pode produzir cansaço, ressentimento e até a sensação de não saber mais quem somos.
Na terapia comportamental, existe uma compreensão importante: comportamentos são influenciados pelas consequências que recebem.
Se toda vez que uma pessoa diz “sim” ela recebe aprovação, evita uma discussão ou sente alívio imediato, esse comportamento tende a se fortalecer.
Ela aprende, mesmo sem perceber:
“Quando agrado, tudo fica bem.”
Enquanto isso, dizer “não” pode produzir ansiedade, culpa ou medo de rejeição.
E, para escapar dessas sensações desconfortáveis, ela volta a dizer “sim”.
Forma-se um ciclo.
A pessoa não necessariamente está escolhendo agradar. Muitas vezes, está tentando evitar aquilo que teme sentir.
É por isso que estabelecer limites pode ser tão difícil.
Não porque a pessoa não saiba que precisa fazê-lo, mas porque dizer “não” pode significar enfrentar emoções que ela passou muito tempo tentando evitar.
E aqui existe uma diferença importante:
ser uma pessoa boa não significa estar disponível para tudo.
Cuidar dos outros não exige abandonar a si mesmo.
Ter empatia não significa aceitar qualquer comportamento.
Ser gentil não significa concordar com tudo.
E colocar limites não transforma ninguém em uma pessoa egoísta.
Limites são, muitas vezes, uma forma de respeito.
Respeito pelo outro, mas também por nós mesmos.
Talvez uma das maiores dificuldades de quem vive buscando aprovação seja compreender que não ser aprovado por alguém não significa necessariamente ter feito algo errado.
Nem todo mundo vai gostar das nossas escolhas.
Nem todo mundo vai compreender nossas decisões.
Nem todo mundo ficará satisfeito quando começarmos a estabelecer limites.
E isso faz parte da vida.
Durante muito tempo, podemos acreditar que uma boa relação é aquela em que ninguém se decepciona conosco.
Mas isso é impossível.
Em algum momento, alguém ficará contrariado.
Alguém discordará.
Alguém poderá interpretar nossas atitudes de maneira diferente daquela que gostaríamos.
A questão não é evitar toda desaprovação.
É aprender a suportar o desconforto de não agradar sem abandonar aquilo que consideramos importante.
Esse processo exige prática.
Começa, muitas vezes, com pequenas escolhas.
Dizer “hoje não posso”.
Expressar uma opinião diferente.
Recusar uma tarefa que ultrapassa nossos limites.
Parar de explicar excessivamente cada decisão.
Perceber que não precisamos justificar cada escolha para que ela seja válida.
No início, pode surgir culpa.
E sentir culpa não significa necessariamente que fizemos algo errado.
Às vezes, significa apenas que estamos fazendo algo diferente daquilo que sempre fizemos.
Esse é um ponto importante no processo de mudança: uma emoção desconfortável não precisa determinar nosso comportamento.
Podemos sentir medo e ainda assim estabelecer um limite.
Podemos sentir culpa e ainda assim dizer não.
Podemos temer a rejeição e ainda assim escolher ser fiéis aos nossos valores.
Talvez ninguém consiga agradar todo mundo.
Na verdade, talvez essa nunca tenha sido uma possibilidade.
E quanto mais cedo compreendermos isso, menos precisaremos viver tentando conquistar uma aprovação que nunca será permanente.
Porque existe uma diferença entre ser querido pelas pessoas e precisar da aprovação delas para se sentir bem consigo mesmo.
A primeira é uma necessidade humana.
A segunda pode se transformar em uma prisão.
Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja:
“Como faço para que todos gostem de mim?”
Mas:
“Quanto de mim estou deixando de ser para que os outros continuem gostando de mim?”
Essa pergunta pode doer.
Mas também pode libertar.
Porque, às vezes, recuperar a própria identidade começa com uma palavra pequena, difícil e poderosa:
não.
E descobrir que, mesmo depois de dizê-la, continuamos sendo dignos de respeito, de afeto e de pertencimento.
Talvez amadurecer seja justamente compreender que não precisamos ser aceitos por todos.
Precisamos, antes de tudo, aprender a não nos abandonar para sermos aceitos por alguém.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



