Por Charles Pires
Existe uma cobrança que pode nos fazer crescer.
Ela nos lembra de cumprir compromissos, buscar nossos objetivos, reconhecer nossos erros e tentar fazer melhor. Mas existe outra cobrança, mais silenciosa, que não nos impulsiona.
Ela nos desgasta.
É aquela voz que diz:
“Você deveria ter feito mais.”
“Você não pode falhar.”
“Os outros estão conseguindo. Por que você não?”
“Isso ainda não está bom.”
“Você precisa ser melhor.”
O problema é que, quando essa voz se torna constante, até nossas conquistas começam a parecer pequenas. Terminamos uma tarefa e já pensamos na próxima.
Alcançamos um objetivo e imediatamente estabelecemos outro.
Recebemos um elogio, mas lembramos daquilo que fizemos errado. E assim, sem perceber, podemos passar a vida correndo atrás de uma versão de nós mesmos que parece estar sempre alguns passos à frente.
Mas quem disse que precisamos ser perfeitos para merecer reconhecer nosso próprio valor?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, aprendemos a observar a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Muitas vezes, não é apenas o que acontece que determina como nos sentimos, mas a maneira como interpretamos aquilo.
Um erro pode ser interpretado como: “Eu errei.”
Mas também pode se transformar em: “Eu sou um fracasso.”
Perceba a diferença. No primeiro pensamento existe um acontecimento.
No segundo, transformamos um acontecimento em uma definição sobre quem somos.
E quando começamos a acreditar que nossos erros dizem quem somos, a cobrança deixa de ser uma ferramenta de crescimento e passa a ser uma forma de punição.
Imagine uma criança aprendendo a andar de bicicleta:
Ela cai; Levanta; Tenta novamente…cai outra vez.
Nenhum pai ou mãe sensato olharia para aquela criança e diria:
“Você caiu de novo. Talvez você não sirva para isso.”
Nós sabemos que ela está aprendendo. Sabemos que a queda faz parte do processo.
Mas, curiosamente, quando somos nós que estamos aprendendo alguma coisa, muitas vezes esquecemos de oferecer a nós mesmos a mesma paciência.
Queremos acertar de primeira. Queremos estar preparados antes de começar. Queremos resultados imediatos.
E quando eles não aparecem, transformamos dificuldade em incapacidade.
Talvez seja hora de fazer uma pergunta simples:
Você fala consigo mesmo como falaria com alguém que ama?
Porque existe uma diferença entre se cobrar para evoluir e se atacar por ainda não ser quem gostaria de ser.
A primeira pode nos mover. A segunda pode nos paralisar.
A busca constante pela aprovação também pode alimentar esse processo. Quando aprendemos a medir nosso valor pelo olhar dos outros, qualquer crítica parece uma ameaça e qualquer falha parece uma prova de que não somos bons o bastante.
Então passamos a viver tentando alcançar uma régua que muda o tempo todo.
Quando chegamos a determinado lugar, queremos outro.
Quando conquistamos algo, sentimos que ainda falta alguma coisa.
Quando somos reconhecidos, precisamos de um novo reconhecimento.
E a pergunta deixa de ser “Estou vivendo de acordo com aquilo que considero importante?”
e passa a ser: “Será que estou sendo bom o bastante para os outros?”
Talvez essa seja uma das prisões mais difíceis de perceber, porque não possui grades.
Ela é construída dentro da própria mente. E, muitas vezes, a chave começa com uma mudança de linguagem.
Trocar: “Eu deveria conseguir.”
por: “Eu ainda estou aprendendo.”
Trocar: “Eu não posso errar.”
por: “Eu posso aprender com o erro.”
Trocar: “Não sou bom o bastante.”
por: “Estou fazendo o melhor que consigo enquanto desenvolvo novas habilidades.”
Isso não significa criar desculpas ou abandonar a responsabilidade.
Significa separar responsabilidade de crueldade.
Podemos reconhecer nossos erros sem nos destruir por causa deles. Podemos desejar melhorar sem acreditar que somos insuficientes. Podemos ter metas sem transformar nossa vida em uma corrida permanente.
Na terapia, muitas vezes, o processo começa justamente quando conseguimos olhar para nossos pensamentos com um pouco mais de distância.
Nem toda crítica interna é uma verdade. Nem toda exigência é necessária. Nem todo “eu deveria” precisa ser obedecido.
Às vezes, aquela voz que hoje nos cobra tanto nasceu de experiências em que aprendemos que só seríamos reconhecidos se tivéssemos um bom desempenho, se não causássemos problemas ou se atendêssemos às expectativas de alguém.
Compreender essa história pode ajudar a modificar a maneira como continuamos tratando a nós mesmos.
Porque uma coisa é buscar evolução. Outra, completamente diferente, é passar a vida tentando provar que somos dignos de existir, de ser amados ou de sermos respeitados.
Talvez você não precise se tornar uma pessoa melhor para finalmente começar a se tratar melhor.
Talvez precise começar a se tratar melhor para conseguir crescer sem precisar viver em guerra consigo mesmo.
A vida não é uma prova em que recebemos uma nota no final.
É um caminho.
E quem caminha precisa, algumas vezes, parar, respirar, olhar para trás e reconhecer a distância que já percorreu.
Você pode ainda não estar onde gostaria. Mas isso não significa que não tenha saído de onde estava.
Crescer também é aprender a reconhecer o próprio caminho — e entender que ser humano nunca foi sinônimo de ser perfeito.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



