Por Antonio Junior
antonio_souza.jr (Instagram)
RESUMO
Este artigo discute como o preconceito pode constituir uma barreira para a aprendizagem quando interfere na segurança emocional, no pertencimento e nas oportunidades pedagógicas. A partir de uma perspectiva neuropsicopedagógica, propõe-se compreender as dificuldades escolares pela interação entre características individuais e contexto social. Discute-se a importância de observar atenção, memória, funções executivas, motivação e autorregulação sem reduzir o estudante ao déficit. Defende-se que práticas pedagógicas antirracistas e ambientes de pertencimento podem ampliar as condições de desenvolvimento.
Palavras-chave: Neuropsicopedagogia; Aprendizagem; Racismo; Preconceito; Equidade educacional.
Introdução
A aprendizagem não acontece em um vazio social. Embora diferenças cognitivas, emocionais e do neurodesenvolvimento possam interferir no percurso escolar, também é necessário reconhecer que as experiências vividas pelos estudantes podem criar barreiras concretas para aprender. Entre essas experiências, o preconceito e a discriminação ocupam lugar relevante, especialmente quando se tornam parte recorrente do ambiente escolar.
Sob uma perspectiva neuropsicopedagógica, compreender uma dificuldade de aprendizagem exige observar a interação entre características individuais e condições ambientais. A legislação educacional brasileira reconhece a consideração da diversidade étnico-racial como princípio da educação nacional, reforçando que a experiência escolar não pode ser separada da dimensão social e cultural. (BRASIL, 1996).
Preconceito, segurança e aprendizagem
O preconceito pode tornar-se uma barreira para aprender quando interfere no sentimento de segurança e pertencimento. O estudante que precisa administrar constantemente situações de exclusão ou antecipar possíveis julgamentos pode ter sua disponibilidade para a aprendizagem reduzida.
Discussões recentes no campo da neuropsicologia têm destacado que experiências recorrentes de racismo podem estar associadas a respostas de estresse e a impactos sobre processos como atenção, memória de trabalho e controle inibitório. Essa literatura recomenda uma abordagem multidimensional, evitando atribuir ao indivíduo aquilo que também pode estar relacionado às condições sociais. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).
A dimensão racial das barreiras escolares
A dimensão racial torna essa discussão ainda mais importante. Estudantes negros podem enfrentar experiências de racismo explícito ou implícito que afetam sua relação com a escola, com os colegas e consigo mesmos. Pesquisas e produções recentes sobre educação e racismo apontam que silenciamentos curriculares, discriminações cotidianas e falta de representatividade podem interferir nos processos educativos. (SANTOS, 2025).
A Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e determinou que esses conteúdos fossem trabalhados no currículo escolar. Posteriormente, a Lei nº 11.645/2008 ampliou essa obrigação para incluir também a história e cultura dos povos indígenas. (BRASIL, 2003; BRASIL, 2008).
Contribuições da Neuropsicopedagogia
A Neuropsicopedagogia pode contribuir justamente no deslocamento do olhar. Em vez de perguntar somente qual é a dificuldade, é necessário perguntar quais condições estão favorecendo ou dificultando a aprendizagem. A avaliação deve buscar tanto dificuldades quanto potencialidades, estratégias que funcionam e barreiras presentes no ambiente.
Isso não significa negar transtornos do neurodesenvolvimento ou outras condições. Significa evitar interpretações simplistas. Uma manifestação comportamental pode ter diferentes significados e exigir diferentes estratégias de intervenção.
Considerações finais
Aprender exige conhecimento, mas também segurança, reconhecimento e possibilidade de participação. Combater o preconceito no ambiente educacional é também uma forma de proteger o direito de aprender. Uma perspectiva neuropsicopedagógica comprometida com a equidade precisa reconhecer que o desenvolvimento resulta da interação entre cérebro, emoções, relações e contexto.
No próximo encontro falaremos de como: O cérebro que aprende e o cérebro que se protege: estresse, racismo e aprendizagem…aguardem!!!
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Brasília, DF: Presidência da República, 2003.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394/1996, modificada pela Lei nº 10.639/2003, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Brasília, DF: Presidência da República, 2008.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Interseccionalidades das desigualdades raciais e socioeconômicas na perspectiva neuropsicológica: entrevista com o Grupo de Trabalho de Neuropsicologia do Conselho Federal de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 2025.
LISBOA, Cristiane Almeida; SOUZA JÚNIOR, Antonio Cordeiro de. A mulher negra como protagonista na interseção entre políticas públicas e neuropsicopedagogia: caminhos para a equidade e inclusão. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, São Paulo, v. 12, n. 1, 2026.
SANTOS, Bianca Cristina Garcia. O impacto do racismo no desenvolvimento da aprendizagem: o papel do/a psicopedagogo/a institucional. 2025. Monografia de Especialização – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2025.
Antonio Junior é Mestre e Doutorando em Educação, neuropsicopedagogo, especialista em ABA para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), contador e escritor.



