Por Fabiana Ribeiro
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Quando estamos mediante situações em que sentimos e não conseguimos expressar, tentamos organizar nossos pensamentos, encontrar uma explicação para determinada emoção, mas a linguagem parece pequena diante do que estamos vivenciando. Então pegamos uma folha, escolhemos uma cor, fazemos um traço, e pouco a pouco aquilo que antes era apenas uma sensação começa a se transformar em uma imagem.
É neste cenário, entre o que conseguimos nomear e o que ainda permanece desconhecido, que encontro uma das aproximações mais bonitas entre a Psicologia Análitica de Carl Gustav Jung e a Arteterapia.
A compreensão de Jung sobre a psique, as imagens, os símbolos e sobre o processo de individuação abriu caminhos importantes para pensar sobre a relação entre criação artística e vida psíquica, e contribuiu para o surgimento da Arteterapia, como está posta hoje.
Carl Gustav Jung, psiquiatra suiço e fundador da psicologia Análitica, construiu uma obra profundamente atravessada pelas imagens, pelos sonhos, pela mitologia, pela literatura, pela religião, pela alquimia e pela própria experiência criativa. Ele próprio produziu imagens ao longo de sua vida e utilizou o desenho e a pintura em seu próprio processo de exploração da psiquê.
Uma pesquisa brasileira dedicada especificamente à relação entre Jung e a arte, mostra que a experiência artística aparece de diferentes maneiras em seus escritos e que o encontro entre arte e Psicologia Análitica, pode abrir espaço para aquilo que ainda não é completamente conhecido pela consciência (Colonnese, 2018). Swan e Foster (2025) destacam que a criação artística, a imaginação ativa e o processo de individuação constituem importantes referências para a Arteterapia de orientação junguiana.
No entanto, convém ressaltar, que os símbolos não representam uma resposta pronta, ele representa uma imagem psíquica, que mesmo sendo a mesma imagem para diferentes indivíduos, apresenta diferentes sentidos para cada um.
De modo que a Arteterapia inspirada pelo pensamento junguiano não precisa procurar um significado correto escondido na produção, ela favorece uma investigação, uma aproximação e uma escuta.
A literatura contemporânea sobre Arteterapia e Psicologia Profunda reforça essa compreensão, símbolos, metáforas e arquétipos podem emergir no processo terapêutico, mas os significados são atravessados pela experiência subjetiva e pelas associações de cada pessoa (Nolan, 2026).
A psicologia Análitica compreende a psíque como constituída por diferentes dimensões, incluindo a consciẽncia, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Sendo que o inconsciente pessoal está relacionado às experiências, lembranças, conflitos e conteúdos que foram vivenciados pelo sujeito e que não permanecem necessariamente acessíveis à consciência. O conceito de inconsciente coletivo está relacionado aos arquétipos – padrões ou possibilidades estruturantes da experiência humana que encontram diferentes expressões simbólicas nas culturas e histórias individuais.
Destarte, que em Arteterapia, convém observar as produções artísticas como algo que contém mais de um significado, pensando no que foi produzido de forma consciente, aquilo que foi percebido depois e o que permaneceu sem nome, que surgiu antes mesmo de conseguir ser compreendido. Ressaltando que a imagem e a palavra caminham juntas, pois a partir do momento que há a materialização da produção, há uma dialogicidade com a mesma, que possibilita novas formas de compreender a experiência.
Recentemente as pesquisas que analisam a arte sobre o prisma da Psicologia Junguiana, descreve a arte como possibilidade de comunicação entre o consciente e inconsciente e destaca conceitos como amplificação ativa e função simbólica no trabalho com as imagens (Lakh, 2025).
A imaginação ativa não deve ser compreendida simplesmente como um desenhar sem pensar, pois envolve relação, atenção e elaboração.
A sombra também pode aparecer, envolvendo aspectos da personalidade que permanecem pouco conhecidos, rejeitados ou fora da consciência e que podem se tornar conscientes. Neste processo a arte possibilita uma descoberta que leva o indivíduo ao encontro de uma versão definitiva de si mesmo e desta forma oportunizar a construção do processo de individuação.
Assim, a Arteterapia e a Psicologia junguiana cumprem o papel fundamental de auxiliar o indivíduo a compreender que algumas coisas não precisam ser imediatamente explicadas, precisam, primeiramente ser vistas, sentidas, escutadas e cuidadas, para posteriormente serem ressignificadas e reconstruídas. Referências
Colonnese, Luisa Rosenberg. Jung e arte: a obra em contínuo devir. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psicologia, USP – São Paulo, 2018.
Swan-Foster, Nora. JUngian Art Therapy. Theory Through Lived Experiences. In:
The Wiley Handbook of Art Therapy, 2025.
Fabiana Ribeiro, Pedagoga, Psicopedagoga, Arteterapeuta, Graduanda em Terapia Ocupacional, Pós Graduanda em Ludicidade e Artes, Psicologia Ativa, gestão de Pessoas e Saúde no Trabalho e Análise do Comportamento ABA, Palestrante, Professora de Educação Infantil no Município de Cotia, radialista e apresentadora de Pod Cast.



