Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Há dias em que o calor parece entrar pela janela, atravessar a pele e chegar diretamente ao pensamento. A noite não refresca, o sono fica leve, a paciência diminui e até uma conversa simples pode parecer esforço demais. Nem sempre percebemos, mas o clima também participa da maneira como sentimos, reagimos e nos relacionamos.
O fenômeno El Niño, marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, pode alterar os padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo. Seus efeitos não acontecem exatamente da mesma forma em todos os lugares, mas podem favorecer ondas de calor, secas intensas ou chuvas extremas. Quando isso se soma às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento do planeta, a experiência se torna ainda mais difícil.
Penso, por exemplo, nas ondas de calor que atingiram diferentes países da Europa nos últimos anos. Em algumas cidades, as temperaturas ultrapassaram os 40 graus. Imagine uma pessoa idosa sozinha em um apartamento sem ventilação, tentando dormir enquanto o corpo não encontra alívio. Ou um trabalhador que precisa enfrentar o transporte público lotado, irritado, desidratado e preocupado com a própria saúde. O calor não permanece apenas no termômetro. Ele afeta o descanso, a concentração, a disposição e a tolerância.
Quando dormimos mal por vários dias, qualquer contrariedade parece maior. Uma mensagem que demora a ser respondida pode despertar insegurança. Uma crítica comum pode ser recebida como rejeição. Uma discussão pequena pode ganhar a dimensão de uma ameaça. Não porque a pessoa seja fraca ou exagerada, mas porque o corpo cansado tem menos recursos para regular aquilo que sente.
No Brasil, também convivemos com extremos cada vez mais presentes: períodos de calor intenso, chuvas muito fortes, enchentes, deslizamentos e secas que comprometem o abastecimento e o trabalho. Quem perde a casa, os objetos, a renda ou a sensação de segurança não enfrenta apenas um problema material. Existe também o medo do próximo temporal, a tristeza pelo que não pode ser recuperado e a dificuldade de planejar o amanhã.
Eu me lembro de como uma simples previsão de chuva pode mudar o humor de alguém que já passou por uma enchente. Para essa pessoa, nuvens escuras não são apenas parte da paisagem. Elas podem carregar lembranças, tensão e uma necessidade constante de vigilância. O corpo aprende a esperar o perigo, mesmo quando, naquele momento, ele ainda não chegou.
É nesse ponto que o cuidado com a saúde mental precisa ser visto com seriedade e humanidade. Não se trata de atribuir todos os sentimentos ao clima, nem de transformar cada reação em diagnóstico. Trata-se de reconhecer que o ambiente influencia nossa vida emocional e que certas condições exigem mais acolhimento, descanso e apoio.
Também penso na autonomia afetiva. Em dias difíceis, posso tentar perceber o que está acontecendo dentro de mim antes de descarregar tudo sobre quem está ao meu lado. Posso dizer: “Estou irritado porque não dormi bem e estou preocupado”, em vez de transformar esse desconforto em uma acusação. Posso reduzir o ritmo, beber água, buscar um lugar fresco, limitar notícias quando elas aumentam a angústia e pedir ajuda sem vergonha.
Autonomia não significa enfrentar tudo sozinho. Significa participar das próprias escolhas, reconhecer os limites e não permitir que o caos externo determine completamente a forma como trato a mim mesmo e aos outros.
O clima está mudando, e isso nos convida a mudar também: não para controlar o que está além de nós, mas para desenvolver mais presença diante do que sentimos. Às vezes, cuidar da saúde mental começa com uma atitude simples: perceber que nem toda irritação é falta de amor, nem todo silêncio é rejeição. Em certos dias, pode ser apenas um corpo pedindo sombra, descanso e cuidado.
Quando o mundo esquenta, a nossa humanidade precisa encontrar abrigo.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353
Credito da imagem: National Geographic España



