Por Érika Ricci
O excesso de estímulos digitais pode estar mudando a forma como crianças e adolescentes lidam com o tédio, a espera, a atenção e até com as próprias emoções.
“Ele não para quieto.”
“Não consegue prestar atenção em nada.”
“Começa uma atividade e logo abandona.”
“Tudo é chato.”
“Se tirar o celular, ele não sabe o que fazer.”
Essas são frases cada vez mais comuns nos consultórios, nas escolas e dentro das casas. E diante de uma criança que parece não conseguir sustentar a atenção, é natural que pais comecem a se perguntar se existe algum transtorno por trás daquele comportamento.
Mas existe uma pergunta que também precisa ser feita: essa criança está realmente desatenta ou está se acostumando a viver em um ambiente de estímulos intensos demais?
Vivemos uma realidade em que vídeos duram poucos segundos, uma imagem é substituída pela próxima com apenas um movimento do dedo, jogos oferecem recompensas imediatas e plataformas são desenvolvidas justamente para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível.
Para um cérebro ainda em desenvolvimento, isso não é um detalhe.
Uma grande revisão científica publicada no JAMA Pediatrics em setembro de 2026 reuniu dados de 23 meta-análises, envolvendo mais de 2,8 milhões de crianças e adolescentes de 64 países. Os pesquisadores encontraram associações entre maior exposição a mídias de tela e piores resultados em alguns aspectos do desenvolvimento, incluindo desempenho acadêmico e habilidades de linguagem, além de maior ocorrência de problemas emocionais, comportamentais e de relacionamento com os pares.
Isso não significa que uma tela, isoladamente, “cause” esses problemas. Associação não é sinônimo de causalidade, e fatores familiares, sociais, individuais e emocionais também interferem nessa relação.
Mas os dados reforçam algo que precisamos observar com atenção: a infância está mudando junto com a forma como o cérebro recebe estímulos.
Quanto tempo de tela é recomendado?
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta:
Até 2 anos: evitar a exposição às telas, inclusive de forma passiva;
De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, preferencialmente com supervisão;
De 6 a 10 anos: aproximadamente 1 a 2 horas por dia;
De 11 a 18 anos: aproximadamente 2 a 3 horas por dia de uso recreativo, além de evitar o uso durante toda a noite.
O Guia Brasileiro sobre Uso de Dispositivos Digitais também reforça que, para crianças pequenas, o objetivo não é simplesmente reduzir uma determinada quantidade de minutos, mas garantir que as telas não ocupem o espaço das experiências essenciais ao desenvolvimento.
A Organização Mundial da Saúde recomenda nenhuma exposição sedentária a telas para bebês menores de 1 ano; aos 2 anos, no máximo uma hora; e, entre 3 e 4 anos, também no máximo uma hora por dia — sendo que quanto menos, melhor.
Já a Academia Americana de Pediatria atualizou sua orientação em 2026 e trouxe uma reflexão especialmente importante para crianças maiores e adolescentes: não existe um número mágico de horas capaz de definir sozinho se a relação com a tecnologia é saudável ou não.
É preciso observar o que aquela tela está substituindo.
– A criança está dormindo adequadamente?
– Brinca?
– Corre?
– Conversa?
– Lê?
– Convive com outras crianças?
– Consegue permanecer alguns minutos sem estímulo?
– Tolera esperar?
– Consegue fazer uma atividade que não ofereça recompensa imediata?
Porque talvez o maior problema não seja apenas o que a criança está fazendo diante da tela e sim aquilo que ela deixou de fazer enquanto estava nela.
O cérebro também precisa aprender a esperar:
Durante a infância, habilidades como atenção, controle dos impulsos, tolerância à frustração e regulação emocional ainda estão sendo construídas e essas habilidades não aparecem prontas, elas são treinadas justamente nas experiências mais simples da vida:
– Esperar a comida ficar pronta.
– Montar um quebra-cabeça difícil.
– Ouvir uma história inteira.
– Tentar novamente depois de errar.
– Inventar uma brincadeira quando ninguém oferece entretenimento.
– Ficar entediado por alguns minutos.
-Terminar uma tarefa antes de começar outra.
É nesse cotidiano aparentemente banal que o cérebro aprende algo fundamental: nem todo estímulo precisa ser imediato.
Quando uma criança passa muitas horas em ambientes altamente estimulantes e depois precisa sentar diante de uma folha de atividade, ouvir uma explicação da professora ou organizar os brinquedos, existe uma diferença enorme na quantidade de recompensa oferecida por cada experiência.
Não significa necessariamente que aquela criança tenha perdido a capacidade de prestar atenção, mas, em alguns casos, significa que atividades comuns passaram a competir com estímulos digitais extremamente mais intensos.
Mas cuidado: nem toda desatenção é causada por telas:
Esse ponto é fundamental. TDAH existe. Transtornos do neurodesenvolvimento existem.
Ansiedade, depressão, alterações do sono, dificuldades de aprendizagem e diferentes condições emocionais também podem produzir desatenção, impulsividade, irritabilidade ou dificuldades escolares. Por isso, seria irresponsável afirmar que basta retirar o celular para resolver qualquer dificuldade comportamental.
Uma criança que apresenta prejuízos significativos precisa ser avaliada adequadamente. O que precisamos evitar é o outro extremo: olhar para uma criança que passa várias horas por dia alternando entre celular, videogame, televisão e vídeos rápidos e analisar sua atenção sem considerar esse contexto.
Não é uma guerra contra a tecnologia.
Tecnologia também ensina, aproxima pessoas, oferece recursos importantes, favorece criatividade e faz parte do mundo em que nossos filhos estão crescendo. O objetivo não deve ser criar crianças desconectadas da realidade digital.
O objetivo é ajudá-las a não depender da hiperestimulação para se sentirem bem. Isso exige limites, supervisão, conteúdo adequado e, principalmente, alternativas reais fora das telas.
E talvez seja aqui que os adultos precisem fazer a pergunta mais difícil:
Quando retiramos a tela, existe vida disponível do outro lado?
– Existe conversa?
– Existe brincadeira?
– Existe passeio?
– Existe presença?
– Existe espaço para a criança participar das tarefas da casa?
– Existe oportunidade para ela experimentar tédio e descobrir sozinha o que fazer com ele?
Porque limitar tela sem oferecer experiências não digitais também pode transformar a orientação em apenas uma proibição.
No consultório, muitas vezes percebo que antes de perguntar somente “quanto tempo essa criança fica no celular?”, precisamos perguntar também:
“como está organizada a vida dessa criança fora dele?”
Talvez seu filho não precise de mais entretenimento. Talvez ele precise recuperar experiências que ensinem o cérebro a esperar, persistir, imaginar, conversar, brincar e suportar alguns minutos em que absolutamente nada extraordinário está acontecendo.
Porque uma infância saudável não precisa ser interessante o tempo todo. E um cérebro em desenvolvimento também precisa aprender que a vida real não muda de vídeo a cada quinze segundos.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
Atendimento psicológico para crianças e adolescentes | Orientação familiar
📱 WhatsApp: (11) 9 5636-6017
📷 Instagram: @erikaricci.psico
📍 São Caetano do Sul – SP | Atendimento presencial e online
WhatsApp: https://wa.me/5511956366017



