Por Dra. Vanessa Nobre
@adv.nobre
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A criança está dentro de casa.
A porta do quarto está fechada. Os pais sabem onde ela está. Não saiu sozinha, não está na rua e aparentemente não há qualquer desconhecido por perto.
Parece segura.
Mas existe um celular em suas mãos.
E, do outro lado da tela, pode estar alguém que seus pais jamais permitiriam entrar pela porta de casa.
Às vésperas do Dia das Crianças, talvez seja importante lembrar que proteger uma criança hoje não significa apenas saber onde ela está.
Significa também saber onde ela está quando entra na internet.
O DESCONHECIDO NÃO PRECISA MAIS SE APROXIMAR NA RUA
Durante décadas, ensinamos às crianças:
“Não converse com estranhos.”
O problema é que, na internet, o estranho pode não parecer estranho.
Pode ter foto de adolescente, dizer que tem 13 ou 14 anos, gostar do mesmo jogo, da mesma música e acompanhar os mesmos influenciadores.
A conversa pode começar de maneira completamente inocente:
“Quer jogar comigo?”
“Você parece legal.”
“Quantos anos você tem?”
“Posso te adicionar?”
E justamente por não começar necessariamente com conteúdo sexual ou ameaça, a criança pode não perceber o perigo.
Existe uma aproximação gradual conhecida como grooming, na qual o adulto procura conquistar confiança, estabelecer vínculo emocional e reduzir as barreiras da criança ou do adolescente antes de avançar para comportamentos abusivos.
O PERIGO TAMBÉM ESTÁ NOS JOGOS
Quando se fala em proteção infantil na internet, muitos pais pensam imediatamente em Instagram, TikTok ou outras redes sociais.
Mas jogos on-line também possuem chats, mensagens privadas, grupos e comunicação entre jogadores.
A pessoa que passa semanas jogando com seu filho pode ser realmente outra criança.
Ou pode não ser.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas:
“Qual jogo ele está jogando?”
Talvez seja igualmente importante perguntar:
“Com quem ele conversa enquanto joga?”
“MANDA UMA FOTO SUA”
Esse pode ser o início de um problema muito maior.
Primeiro vem uma fotografia comum.
Depois outra.
A conversa ganha intimidade.
Até surgir um pedido de conteúdo íntimo.
E, quando a imagem é enviada, o tom muda:
“Se você não mandar outra, vou mostrar esta para seus pais.”
“Vou enviar para seus amigos.”
“Vou publicar na escola.”
“Faça o que estou pedindo ou todo mundo vai ver.”
A criança que acreditava estar conversando com alguém de sua idade percebe que está presa em uma situação que não sabe como resolver.
O medo e a vergonha podem fazer com que ela esconda justamente das pessoas que poderiam ajudá-la.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL CRIOU UM NOVO RISCO
Hoje existe uma preocupação ainda mais grave.
Uma fotografia aparentemente inocente publicada em uma rede social pode ser manipulada digitalmente.
Com ferramentas de inteligência artificial, é possível criar imagens falsas extremamente realistas, inclusive de conteúdo sexual.
E o fato de aquela cena nunca ter acontecido não significa que não exista vítima.
Em 2026, o Brasil endureceu a legislação sobre esse tipo de violência. A Lei nº 15.487 passou a prever medidas específicas de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive quando praticada no ambiente digital e com utilização de inteligência artificial.
A tecnologia mudou.
A legislação também precisou mudar.
“MAS MEU FILHO SABE QUE NÃO PODE FALAR COM ESTRANHOS”
Talvez saiba.
Mas quem pratica esse tipo de abordagem justamente tenta deixar de parecer um estranho.
Pode fingir idade.
Criar perfil falso.
Usar fotografias de outra pessoa.
Conhecer previamente os interesses da vítima pelas próprias redes sociais.
E, principalmente, construir confiança antes de fazer qualquer pedido suspeito.
É por isso que somente proibir não basta.
A criança precisa saber que, se alguma coisa acontecer, ela poderá procurar os pais sem medo de ser castigada ou de perder imediatamente o celular.
Se a primeira reação do adulto for apenas:
“Eu avisei!”
“Por que você fez isso?”
“Vou tirar seu telefone!”
ela poderá pensar duas vezes antes de contar da próxima vez.
SE UMA IMAGEM JÁ FOI ENVIADA, NÃO APAGUE TUDO
Ao descobrir uma situação dessas, o impulso dos pais pode ser bloquear imediatamente o perfil e apagar todas as conversas.
Bloquear pode ser necessário para interromper o contato.
Mas preservar provas também é fundamental.
Mensagens, nomes de usuário, links dos perfis, números de telefone, e-mails, comprovantes de pagamentos, datas, horários e demais registros digitais podem ajudar na identificação do autor.
Não negocie com o agressor.
Não pague acreditando que isso necessariamente encerrará a chantagem.
E não compartilhe o conteúdo íntimo da criança com terceiros na tentativa de “mostrar o que aconteceu”.
Procure orientação e comunique o fato às autoridades competentes.
PROTEGER NÃO SIGNIFICA VIGIAR CADA SEGUNDO
A resposta para os riscos da internet não é transformar a casa em uma delegacia.
É construir confiança.
Conversar sobre privacidade.
Explicar que pessoas podem mentir sobre quem são.
Ensinar que imagens enviadas pela internet podem sair do controle.
Conhecer os jogos e aplicativos utilizados.
Observar mudanças repentinas de comportamento.
E deixar uma mensagem muito clara:
“Se alguém fizer você se sentir com medo, vergonha ou pressionado, pode me contar. Eu vou ajudar você.”
Essa frase talvez proteja mais do que qualquer aplicativo de controle parental.
A PORTA DO QUARTO ESTÁ FECHADA. MAS E A PORTA DIGITAL?
A infância mudou.
Hoje, uma criança pode estar fisicamente dentro de casa e, ao mesmo tempo, conversando com alguém que está a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
Por isso, proteger nossos filhos também exige compreender o ambiente em que eles vivem.
Não é preciso demonizar a tecnologia.
É preciso aprender a utilizá-la com segurança.
Durante muito tempo ensinamos as crianças a não conversar com estranhos na rua.
Talvez tenha chegado a hora de perguntar com quem elas estão conversando dentro do próprio quarto.
Dra. Vanessa Nobre
Advogada Criminalista
Coluna A VOZ DA DEFESA
Advogada criminalista, autora e colunista de “A VOZ DA DEFESA”
Dedica-se ao estudo e á aplicação da investigação defensiva, provas digitais, perícia e análise técnica de evidências, área que vêm transformando a advocacia contemporânea.
Sua atuação concentra-se na identificação, validação e contestação de provas, utilizando métodos investigativos e conhecimento técnicos capazes de auxiliar na busca da verdade dos fatos e na construção de estratégias defensivas sólidas.
Defensora da inovação jurídica, acredita que o futuro da advocacia passa necessariamente pela compreensão das novas tecnologias e da prova digital.



