Por Fabrizio Martins Tavoni
@fabriziotavoni_profissional
Toca o sinal do recreio e, em menos de um minuto, o pátio da escola ganha vida. Um grupo de seis crianças se junta perto do bebedouro para decidir quem vai ser o pegador no esconde-esconde. Ninguém consulta a professora. Uma menina estica o dedo e começa a apontar, um por um, no ritmo da fórmula: “uni-duni-tê, salamê minguê, um sorvete colorê, o escolhido foi você”. O menino apontado por último reclama: diz que ela começou a contar por ele de propósito. A turma discute por alguns segundos se vale recomeçar. Decide que vale. Recontam, o novo resultado é aceito sem protesto e a brincadeira começa.
A cena pode parecer corriqueira, e é justamente por isso que interessa à sociologia. Ninguém ensinou àquelas crianças, em sala de aula, as palavras do uni-duni-tê, nem a regra não escrita de que quem conta não escolhe por onde começar, nem o jeito de resolver a disputa. Elas aprenderam umas com as outras: as mais novas observando as mais velhas, que aprenderam com outras antes delas. Há ali um pequeno sistema de normas, com tradição, autoridade e formas próprias de julgamento, funcionando quase inteiramente longe dos adultos.

Legenda: Eu no alto do escorregador aos seis anos de idade.
Quem primeiro levou isso a sério no Brasil foi o sociólogo Florestan Fernandes. Nos anos 1940, no início da carreira, ele estudou os grupos de brincadeira das crianças do Bom Retiro, bairro operário e de imigrantes de São Paulo, e os chamou pelo nome que elas mesmas usavam: as “trocinhas”. O que encontrou foi uma cultura infantil com vida própria, feita de cantigas, fórmulas de escolha, regras de jogo, hierarquias e punições, transmitidas de geração em geração entre as próprias crianças. Percebeu também que era nas trocinhas que filhos de famílias de origens muito diferentes aprendiam a conviver e a se tornar, juntos, crianças da mesma cidade.
Décadas depois, a sociologia da infância chegaria a conclusões parecidas. O norte-americano William Corsaro, que passou anos observando crianças em escolas dos Estados Unidos e da Itália, fala em “culturas de pares” e em “reprodução interpretativa”: as crianças não recebem o mundo adulto pronto, mas o reinterpretam e o transformam do seu jeito. O português Manuel Jacinto Sarmento segue a mesma senda ao tratar as crianças como atores sociais, e não como adultos incompletos à espera de formação. O que Florestan viu no Bom Retiro, portanto, não era uma curiosidade de bairro, mas uma regularidade: onde houver crianças reunidas, haverá cultura sendo produzida por elas.

É aqui que a cena do recreio pede uma segunda leitura. Se a capacidade de criar regras é comum a todas as crianças, o espaço onde isso acontece não é. Falar em “a criança”, no singular, esconde que o Brasil tem infâncias no plural. As trocinhas continuam existindo, mas se distribuem de forma desigual. Há crianças cujo uni-duni-tê acontece na rua ou no campinho, entre vizinhos de idades variadas e com pouca vigilância adulta. Há as que brincam no playground do condomínio, em horário marcado e com adultos por perto. Há as que encontram os amigos sobretudo numa partida on-line, com colegas que talvez nunca tenham visto pessoalmente. E há aquelas para quem o recreio é o principal espaço seguro de brincadeira coletiva do dia.
Nenhuma dessas formas é, em si, melhor ou pior. A pergunta sociológica é outra: quem brinca onde, com quem e sob o olhar de quem. Cada espaço ensina coisas diferentes. A rua ensina a negociar com crianças mais velhas e desconhecidas; o condomínio, a convivência entre iguais; o jogo on-line, códigos que atravessam cidades. E o Bom Retiro de Florestan lembra que aquela não era uma infância idealizada: eram filhos de trabalhadores, que tinham a rua como território justamente porque tinham pouco além dela.
Por isso a escola ocupa um lugar tão particular nessa história. O pátio é um dos raros lugares em que crianças de condições diferentes fazem o mesmo uni-duni-tê, sob as mesmas regras. Ali, durante o recreio, quem define o escolhido não é a renda da família nem o endereço, mas o dedo de uma menina e uma cantiga que ninguém sabe ao certo quem inventou.

Neste 12 de outubro, as vitrines vão sugerir que celebrar a criança é acertar no presente. A sociologia sugere, no lugar, uma pergunta aos adultos. Se as crianças seguem, geração após geração, inventando por conta própria as regras do seu mundo, que espaços a sociedade adulta está oferecendo para que façam isso, e para quais crianças? Talvez o presente mais importante nesse dia 12 de outubro não caiba numa caixa, mas sim num lugar.
Fabrizio Martins Tavoni é Sociólogo (UEL), Mestre em Ciência Política (UFSCar) e Doutorando em Educação (Unicamp).


