Por Carla Perin
@cacaperin
Quando pensamos em uma cadela que acaba de dar à luz, imaginamos uma cena quase instintiva: ela limpa seus filhotes, aproxima-os do corpo, permite que mamem e permanece atenta a cada movimento. Mas nem sempre é assim. Algumas cadelas se afastam dos recém-nascidos, recusam a amamentação, demonstram irritação quando eles se aproximam e, em situações mais graves, podem até agredi-los. E então surge uma pergunta que intriga muitos tutores: Como uma mãe pode rejeitar os próprios filhotes? O instinto materno pode falhar? Na Medicina Veterinária, o comportamento materno envolve uma complexa interação entre hormônios, sistema nervoso, condições físicas e ambiente. Durante o parto e após o nascimento, hormônios como a ocitocina e a prolactina participam dos processos relacionados à lactação e ao comportamento materno. Entretanto, essas mudanças hormonais não garantem que todas as cadelas apresentem o mesmo comportamento. Fêmeas que estão passando pela primeira gestação podem demonstrar insegurança ou dificuldade inicial para cuidar dos filhotes. Partos difíceis, dor, exaustão, mastite, alterações metabólicas e outras doenças também podem interferir na aceitação da ninhada. O ambiente exerce influência importante. Barulho excessivo, manipulação constante dos recém-nascidos, falta de privacidade e situações de estresse podem prejudicar o comportamento materno. Em alguns casos, a cadela rejeita apenas um filhote, especialmente quando ele está debilitado. Mas isso não significa que toda rejeição indique que o recém-nascido esteja doente Estamos diante de um comportamento que precisa ser compreendido a partir da biologia e das condições em que aquele animal se encontra. A primeira atitude deve ser procurar orientação veterinária. Os filhotes recém-nascidos dependem de aquecimento, alimentação e cuidados constantes para sobreviver. Quando a mãe não oferece esses cuidados, a intervenção humana pode ser necessária. Também é fundamental investigar se existe alguma condição clínica causando dor ou desconforto na cadela.Nem sempre insistir na aproximação é seguro. Quando existe agressividade, os filhotes precisam ser protegidos.
O que essa situação nos convida a compreender?
Pelo olhar sistêmico, podemos ampliar nossa reflexão sobre a maternidade. Costumamos associar o nascimento à ideia de que toda mãe naturalmente saberá cuidar. Mas a natureza nos mostra que a maternidade envolve condições que vão além do nascimento.
Gerar uma vida e conseguir cuidar dela não são exatamente a mesma coisa.
Isso não significa que devemos comparar diretamente a maternidade humana à dos animais. Cada espécie possui sua própria organização biológica e comportamental. Entretanto, observar a natureza pode nos ajudar a abandonar julgamentos precipitados. Uma cadela que rejeita seus filhotes não precisa ser condenada por um comportamento que ainda não compreendemos. Ela precisa ser observada, avaliada e, quando necessário, receber cuidados. Talvez essa seja uma das grandes lições que os animais nos oferecem:
Antes de julgar um comportamento, precisamos compreender o que existe por trás dele.
Porque nem tudo aquilo que parece rejeição nasce da ausência de vínculo. Às vezes, existem condições que impedem que esse vínculo se manifeste da maneira que esperamos.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



