Por Bia Rossatti
Terapeuta sistêmica
@biarossattiterapeuta
Nem todo casal que pensa em se separar deixou de amar. Às vezes, o que falta é diálogo, compreensão e a possibilidade de enxergar um caminho diferente para a relação.
Há casamentos que não terminam de uma hora para outra. Eles vão se desgastando aos poucos, em meio às responsabilidades, às discussões que nunca chegam a uma solução e aos assuntos que o casal já nem tenta mais conversar. São duas pessoas que continuam morando na mesma casa, dividindo as contas e cuidando dos filhos, mas, por dentro, sentem que estão cada vez mais distantes.
Talvez você conheça alguém nessa situação. Ou talvez esteja vivendo isso agora.Uma pergunta começa a aparecer, mesmo que ainda seja difícil pronunciá-la em voz alta: será que vale a pena continuar tentando ou chegou a hora de terminar? Essa dúvida pode ser dolorosa porque, depois de tantos anos juntos, uma separação não envolve apenas duas pessoas. Envolve filhos, casa, patrimônio, planos para o futuro e uma história construída ao longo do tempo.
Por isso, antes de tomar uma decisão tão importante, vale a pena compreender o que está acontecendo com o relacionamento.
O que as pesquisas nos ajudam a entender?
As estatísticas mostram que o divórcio também faz parte da realidade de casais que passaram muitos anos juntos. Um estudo publicado em 2022 na revista científica The Journals of Gerontology: Series B, realizado pelas pesquisadoras Susan L. Brown e I-Fen Lin, analisou a evolução dos divórcios entre pessoas com 50 anos ou mais nos Estados Unidos.
O trabalho identificou que a taxa de divórcio nessa faixa etária dobrou entre 1990 e 2010. O estudo também mostrou que, em 2019, aproximadamente uma em cada três pessoas que se divorciavam nos Estados Unidos tinha 50 anos ou mais.
Esses números não significam que todos os casamentos longos estejam em crise, nem que a mesma proporção se aplique ao Brasil. Eles mostram, porém, que o fim d e um relacionamento não é uma realidade exclusiva dos mais jovens.
Mas por que duas pessoas que construíram uma vida juntas chegam ao ponto de considerar a separação?
Não existe uma única resposta. Cada casal tem sua história, suas dificuldades e seus motivos. Em muitos casos, o problema não começou ontem. Ele foi crescendo enquanto a vida seguia. Fonte: Brown e Lin, The Graying of Divorce: A Half Century of Change, 2022. Leia o estudo científico.
Quando os problemas pequenos deixam de ser pequenos: uma discussão sobre dinheiro pode parecer apenas uma briga por causa de uma conta. Mas, por trás dela, pode existir uma preocupação maior: um dos parceiros sente que carrega todas as responsabilidades, enquanto o outro acredita que nunca é ouvido.
Uma reclamação sobre a falta de atenção pode esconder a saudade de se sentir importante para o companheiro. O silêncio dentro de casa pode ser interpretado como tranquilidade, quando, na verdade, representa desistência de tentar conversar.
É assim que alguns relacionamentos vão perdendo a proximidade. Não necessariamente por causa de um único acontecimento, mas pela repetição de situações que machucam e não encontram solução.
Com o tempo, o casal passa a discutir sempre pelos mesmos motivos. Um cobra, o outro se defende. Um insiste, o outro se afasta. E ambos terminam a conversa com a sensação de que nada mudou. Quando isso acontece durante anos, é compreensível que surja o pensamento de que talvez não exista mais jeito.
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que o relacionamento está sofrendo e concluir que ele não pode mais ser reconstruído. Uma coisa não determina automaticamente a outra.
Depois dos 50 anos, a decisão pode parecer ainda mais difícil
Para quem está junto há décadas, pensar em separação pode trazer perguntas que vão muito além da vida amorosa. Como ficará a vida financeira? O que acontecerá com a casa? Como os filhos vão reagir? Será possível começar de novo? E se eu me separar e me arrepender?
Essas preocupações merecem ser levadas a sério. Uma revisão científica publicada em 2026 na revista Journal of Family Theory & Review, dedicada ao chamado divórcio grisalho — expressão usada para falar de separações a partir dos 50 anos — reuniu estudos sobre os fatores associados a essas rupturas e suas consequências.
A revisão aponta que a separação nessa fase da vida pode trazer mudanças importantes na segurança financeira, no bem-estar emocional e nas relações familiares. Os efeitos não são iguais para todos, e as condições econômicas e o apoio da família fazem diferença. Isso ajuda a entender por que algumas pessoas permanecem durante muito tempo em um casamento infeliz, mesmo quando já pensaram em sair.
Não é necessariamente falta de coragem. Às vezes, é o medo de tudo o que precisará ser reorganizado. E esse medo pode dificultar tanto a decisão de ficar quanto a de partir. Fonte: Gray Divorce After 50: A Scoping Review of Antecedents, Consequences, and Family-Theoretical Gaps, publicado em 2026. Consulte a revisão científica.
Quando um quer tentar e o outro já pensa em ir embora
Uma situação bastante delicada acontece quando um dos parceiros quer salvar o casamento, enquanto o outro já está inclinado à separação. Quem deseja continuar costuma pedir mais uma tentativa. Quem está cansado pode sentir que já tentou de tudo. A insistência de um pode aumentar o afastamento do outro. E o afastamento pode provocar ainda mais insistência.
Nesse momento, dizer simplesmente “vocês precisam conversar” nem sempre resolve. Afinal, muitas vezes o casal já conversou inúmeras vezes, sem conseguir sair do mesmo lugar.
É justamente para situações de dúvida como essa que existe uma abordagem conhecida como Discernment Counseling, que pode ser traduzida como aconselhamento para discernimento da decisão conjugal. O objetivo não é convencer o casal a permanecer junto a qualquer custo. Também não é apressar uma separação. A proposta é ajudar cada pessoa a compreender melhor o que aconteceu com a relação, reconhecer sua participação nos problemas e avaliar, com mais clareza, os caminhos possíveis.
Um estudo publicado em 2015 por William J. Doherty e colaboradores descreveu essa abordagem para casais em que os parceiros têm posições diferentes sobre o futuro do casamento. Em uma análise de 100 casos consecutivos, cerca de metade dos casais escolheu iniciar uma terapia de casal para tentar a reconciliação.
Isso não significa que a terapia garanta a recuperação do casamento. Significa que, em situações de indecisão, pode existir um espaço estruturado para avaliar o que fazer antes de definir os próximos passos. Leia o estudo sobre Discernment Counseling.
Clareza antes da decisão
Na minha experiência como terapeuta sistêmica, considero importante olhar para o relacionamento sem transformar um dos parceiros no único culpado por tudo o que aconteceu. Isso não significa ignorar desrespeito, agressões ou situações que colocam alguém em risco. Significa compreender a história do casal, os padrões que se repetem e aquilo que ainda precisa ser enfrentado. Também significa reconhecer que nem todo casamento poderá ou deverá continuar.
Há relacionamentos em que os dois estão dispostos a rever comportamentos e construir uma nova maneira de viver juntos. Em outros, essa disposição não existe, ou a separação se mostra o caminho mais adequado. O que considero essencial é que uma decisão tão importante não seja tomada apenas no calor de uma discussão, por pressão da família ou pelo medo de ficar sozinho.
Quando existe segurança para isso, buscar ajuda pode oferecer um espaço para organizar os pensamentos, falar sobre o que dói e compreender as possibilidades reais.
A pergunta deixa de ser apenas “eu fico ou vou embora?” e passa a incluir outras questões: o que nos trouxe até aqui? O que precisaria mudar? Estamos dispostos a fazer esse trabalho? E o que cada um entende como uma vida possível daqui para a frente? Essas respostas não aparecem de uma hora para outra. Mas podem ajudar a tomar uma decisão mais consciente.
Antes do fim, vale compreender o que ainda é possível
Depois de tantos anos juntos, é natural olhar para a história do casal e sentir medo de perder tudo o que foi construído. Mas também é importante reconhecer que continuar sem mudar nada pode prolongar o sofrimento. Buscar clareza não é uma promessa de reconciliação. É uma oportunidade de compreender a situação antes de decidir os próximos passos.
Se existe disposição de ambos para reconstruir a relação, o casal pode avaliar um caminho de trabalho e mudança. Se a decisão for pela separação, compreender o que aconteceu também pode ajudar a conduzir essa transição com mais responsabilidade, especialmente quando existem filhos e patrimônio envolvidos. Você não precisa ter todas as respostas hoje. Mas merece ter espaço para fazer as perguntas certas.
É esse o sentido da proposta Antes do Fim: oferecer um caminho de clareza antes da decisão, para que a escolha de permanecer ou partir seja feita com mais consciência, responsabilidade e respeito pela história de cada pessoa. Porque, às vezes, antes de decidir se o casamento acabou, é preciso compreender o que ainda existe entre duas pessoas — e se há disposição real para transformar essa história.
Sobre a autora
Bia Rossatti é terapeuta sistêmica, com 14 anos de experiência no atendimento de casais e famílias. Seu trabalho integra o olhar sobre os relacionamentos, a dinâmica familiar e os desafios financeiros que podem fazer parte das crises conjugais. É autora do livro Depois do Divórcio — A Rota da Cura e desenvolve o projeto Antes do Fim, voltado a pessoas que buscam clareza diante de uma crise no relacionamento.



