Por Fabrizio Martins Tavoni
@fabriziotavoni_profissional
Sugiro um exercício rápido de memória: tente lembrar o nome da pessoa que segurou sua mão para traçar as primeiras letras. Muita gente pode se esquecer do endereço da escola, da cor do uniforme, do número da sala, mas não esquece aquele nome. O Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, é um bom pretexto para olhar essa figura com olhos de sociólogo: não apenas como alguém de quem gostamos (ou não), mas como uma profissão com história, com lugar social e com problemas que não são individuais.

Legenda: Meu primeiro diploma, uma das primeiras marcas de uma longa trajetória de aprendizagem. Na foto, recebo o diploma do pré-primário das mãos da professora que, naquele momento, representava o início de uma caminhada que passaria por muitas outras salas de aula, livros e descobertas. Antes de qualquer título, existe alguém que nos ensina os primeiros passos. E, muitas vezes, essa lembrança permanece conosco por toda a vida.
Durkheim definia a educação como a ação que as gerações adultas exercem sobre as mais jovens para prepará-las para a vida em sociedade, a socialização metódica de quem chega. Se é assim, o professor ocupa um posto estratégico: é por suas mãos que uma sociedade transmite a si mesma. Curiosamente, essa importância nunca garantiu prestígio. A palavra “pedagogo” vem do grego paidagogós, que designava não o mestre, mas o escravo encarregado de conduzir as crianças até a escola. Desde a origem, educar nasce ligado a uma posição ambígua: essencial, mas nem sempre reconhecida à altura.
No Brasil, essa história começa em 1549, com a chegada dos jesuítas liderados por Manuel da Nóbrega. Em História das Ideias Pedagógicas no Brasil, Dermeval Saviani mostra que, por mais de dois séculos, a educação na colônia foi praticamente monopólio da Companhia de Jesus, orientada primeiro pelo plano de Nóbrega, voltado à catequese e ao ensino de indígenas e filhos de colonos, e depois pelo Ratio Studiorum, o código que padronizava os colégios jesuítas no mundo inteiro. Ensinar era parte da missão de converter. O quadro muda em 1759, quando o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas e cria as aulas régias: disciplinas avulsas, a cargo de professores nomeados pela Coroa e pagos com um imposto específico, o subsídio literário. A transição foi marcada por falta de mestres preparados, aulas dispersas e remuneração incerta; queixas que, mais de duzentos anos depois, soam estranhamente familiares.
A data de dessa semana também vem dessa história. Em 15 de outubro de 1827, D. Pedro I sancionou a lei que mandava criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Em 1947, o professor Salomão Becker sugeriu, em São Paulo, que o dia fosse dedicado aos docentes; a ideia se espalhou e foi oficializada em todo o país por decreto federal em 1963.

Legenda: A Lei de 15 de outubro de 1827, sancionada por D. Pedro I, determinou a criação de escolas de primeiras letras nas cidades, vilas e lugares mais populosos do Império.
Nenhum nome sintetiza melhor o debate sobre o que significa ensinar no Brasil do que o de Paulo Freire (1921–1997), declarado Patrono da Educação Brasileira pela Lei nº 12.612, de 2012. Em 1963, em Angicos (RN), sua equipe alfabetizou cerca de trezentos trabalhadores em aproximadamente quarenta horas, partindo de palavras do próprio cotidiano deles. Em Pedagogia do Oprimido, Freire criticou a educação que chamou de “bancária”, na qual o professor “deposita” conteúdos em alunos tratados como recipientes vazios, e defendeu uma educação dialógica, em que educador e educando aprendem juntos a partir do mundo que compartilham. Mais tarde, em Pedagogia da Autonomia, resumiria: ensinar não é transferir conhecimento. Sua obra está entre as mais citadas das ciências humanas no mundo e é, também, alvo de intensas disputas no país; sinal de que a pergunta sobre como ensinar nunca é apenas técnica.

Legenda: Paulo Freire durante a experiência de alfabetização de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963. A iniciativa demonstrou que ensinar a ler e escrever pode ir além da transmissão de conteúdos: é também reconhecer a experiência dos educandos e construir conhecimento por meio do diálogo.
E hoje? Segundo o Censo Escolar do INEP, cerca de 2,3 milhões de pessoas lecionam na educação básica brasileira. Por trás desse número estão jornadas que continuam em casa, entre provas e planejamentos; professores que dividem a semana entre duas ou três escolas para compor a renda; contratos temporários; salários que, apesar do piso nacional instituído em 2008, seguem abaixo da média de outros profissionais com ensino superior. Há também a violência: na pesquisa TALIS, da OCDE, de 2013, o Brasil liderou o ranking de professores que relataram sofrer intimidação ou agressão verbal semanalmente. Não surpreende que o adoecimento docente cresça e que cada vez menos jovens queiram seguir a carreira.
Para a sociologia, nada disso é problema de vocação individual. A forma como uma sociedade trata seus professores diz muito sobre o que ela espera do próprio futuro. Fica, a questão, a questão nessa data: se é pelo professor que uma sociedade se transmite às novas gerações, o que estamos ensinando a elas quando o desvalorizamos?
Fabrizio Martins Tavoni é Sociólogo (UEL), Mestre em Ciência Política (UFSCar) e Doutorando em Educação (Unicamp).



