Por Charles Pires
Você já percebeu como algumas situações parecem despertar sentimentos muito maiores do que aquilo que realmente aconteceu?
Uma crítica aparentemente simples provoca uma tristeza profunda. Uma mensagem não respondida desperta o medo de ser abandonado. Uma discussão comum traz uma sensação de rejeição difícil de explicar. Às vezes, reagimos de maneira tão intensa que nós mesmos nos surpreendemos.
Talvez isso aconteça porque nem sempre estamos respondendo apenas ao presente. Em algumas situações, experiências anteriores também participam da maneira como interpretamos aquilo que vivemos hoje.
Nas últimas semanas, refletimos nesta coluna sobre os comportamentos que repetimos, as expectativas que carregamos e a facilidade com que transformamos certas características em definições permanentes sobre quem somos. Mas existe uma pergunta que merece atenção: quantas das nossas reações atuais foram aprendidas em momentos da vida nos quais ainda não tínhamos recursos para compreender o que estava acontecendo?
Imagine alguém que cresceu ouvindo que nunca fazia nada direito. Mesmo depois de adulto, profissionalmente competente e reconhecido, continua sentindo uma angústia enorme diante de qualquer crítica. Não importa quantos elogios receba; basta uma observação negativa para que aquela antiga sensação de incapacidade reapareça.
Em situações como essa, o problema pode não estar apenas nas palavras que foram ditas hoje, mas no significado que elas adquiriram ao longo de uma história.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que nossas experiências contribuem para a formação de crenças sobre nós mesmos, sobre as outras pessoas e sobre o mundo. Essas crenças funcionam como lentes pelas quais interpretamos os acontecimentos. E, quando uma lente foi construída a partir de experiências dolorosas, situações comuns podem parecer ameaçadoras.
É como olhar uma paisagem através de uma janela com o vidro embaçado. A paisagem está ali, mas aquilo que enxergamos também é influenciado pelas condições do vidro.
Às vezes, não precisamos mudar toda a paisagem. Precisamos compreender o que está interferindo na maneira como a enxergamos.
No contexto terapêutico, é possível encontrar pessoas que reconhecem racionalmente que estão seguras, mas continuam experimentando medo, insegurança ou necessidade excessiva de controle. Sabem que determinadas reações não fazem sentido diante da situação atual, mas isso não significa que consigam modificá-las imediatamente.
Pense, por exemplo, em uma pessoa que aprendeu, durante a infância, que demonstrar sentimentos poderia resultar em críticas ou humilhações. Na vida adulta, ela pode encontrar dificuldades para expressar suas emoções, mesmo em relacionamentos acolhedores.
Não necessariamente porque seja fria ou indiferente, mas porque aprendeu que se proteger emocionalmente era mais seguro do que se expor.
Esse exemplo é ilustrativo, mas representa algo importante: alguns comportamentos que hoje nos limitam podem ter sido, em outro momento, tentativas de proteção.
É justamente por isso que compreender nossa história pode fazer diferença no processo terapêutico. Em abordagens que trabalham o reprocessamento de experiências emocionais, busca-se ajudar a pessoa a elaborar vivências difíceis e desenvolver novas maneiras de responder às situações atuais. Esse trabalho precisa respeitar a individualidade de cada pessoa, sem presumir que toda dificuldade tenha origem em um trauma ou acontecimento específico.
O objetivo não é encontrar culpados, tampouco passar a vida procurando respostas no passado. É compreender o que aprendemos e avaliar se aquilo ainda nos ajuda a viver da maneira que desejamos.
Existe uma diferença importante entre reconhecer que fomos influenciados por determinadas experiências e acreditar que estamos condenados a repeti-las.
O passado não pode ser alterado, mas nossa relação com ele pode mudar.
Não podemos voltar à infância para impedir todas as dores que enfrentamos, nem apagar determinadas perdas ou decisões. Podemos, entretanto, desenvolver novos recursos emocionais, questionar crenças antigas e construir respostas diferentes diante de situações semelhantes.
Isso não significa que toda ferida desaparecerá ou que mudar seja apenas uma questão de vontade. Algumas experiências deixam marcas profundas e exigem tempo, cuidado e acompanhamento adequado.
Mas nossa história não precisa ser tratada como uma sentença definitiva.
Talvez amadurecer também envolva reconhecer que algumas explicações sobre quem somos já não precisam determinar nossas escolhas. Aquilo que vivemos merece ser compreendido, mas não precisa ser repetido indefinidamente.
Por isso, proponho uma reflexão para esta semana: diante de uma reação que costuma se repetir, experimente perguntar a si mesmo: “Estou respondendo ao que está acontecendo agora ou também ao significado que aprendi a atribuir a situações parecidas?”
Não procure uma resposta imediata. Apenas observe. Talvez você descubra que alguns medos ainda merecem ser acolhidos, enquanto certas crenças precisam ser questionadas.
E, se perceber que determinadas experiências continuam produzindo sofrimento ou limitando sua vida, buscar ajuda profissional pode ser uma maneira importante de iniciar esse processo.
Afinal, compreender o passado não significa permanecer preso a ele. Significa reconhecer de onde viemos para que possamos participar, com mais consciência, da construção do lugar para onde desejamos ir.
Porque nossa história ajuda a explicar quem nos tornamos, mas não precisa escrever sozinha os próximos capítulos da nossa vida.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



