Por Dr Alancaster Silverio de Assis
Coração acelerado, mente a mil, noites em claro: a ansiedade é o transtorno mental mais comum do Brasil. Entenda o que acontece no corpo, quando ela vira doença e por que existe tratamento eficaz.
Quem nunca sentiu um frio na barriga antes de uma prova, de uma entrevista de emprego ou de uma decisão importante? Essa sensação tem nome e função: é a ansiedade, uma resposta natural do corpo diante de situações de perigo ou de desafio. Ela nos prepara para agir, nos mantém atentos e, em doses certas, até nos ajuda a render melhor. O problema começa quando esse alarme interno dispara sem motivo real, em volume alto demais e por tempo prolongado, roubando o sono, a paz e a qualidade de vida. É nesse momento que a ansiedade deixa de ser um mecanismo de proteção e vira sofrimento — e, em muitos casos, um transtorno que merece atenção médica.
O que é ansiedade e quando ela é normal
Sentir ansiedade é humano. Ela é uma emoção universal, que todo mundo experimenta em algum momento da vida. A ansiedade se torna um problema quando quatro coisas acontecem ao mesmo tempo: ela é DESPROPORCIONAL (a reação é muito maior do que a situação pede), PERSISTENTE (dura semanas ou meses, quase todos os dias), DIFÍCIL DE CONTROLAR (a preocupação não sai da cabeça por mais que a pessoa tente) e CAUSA PREJUÍZO (atrapalha o trabalho, os estudos, os relacionamentos, o sono ou a rotina). Quando isso ocorre, pode estar presente um transtorno de ansiedade — e só um profissional de saúde pode avaliar e diagnosticar.
Sintomas: o corpo e a mente falam
Os sintomas emocionais mais comuns são: preocupação excessiva e difícil de controlar, medo constante de que algo ruim aconteça, irritabilidade, inquietação, dificuldade de concentração, sensação de “mente vazia” e de catástrofe iminente. Os sintomas físicos incluem: coração acelerado ou palpitações, falta de ar e aperto no peito, tremores, suor frio, tensão muscular (principalmente no pescoço e nos ombros), dor de cabeça, boca seca, náuseas e desconforto abdominal, tontura, insônia ou sono não reparador e vontade frequente de ir ao banheiro. Muitas pessoas procuram primeiro cardiologistas, gastroenterologistas ou clínicos gerais por causa desses sintomas físicos — e é comum que, após descartar causas orgânicas, o profissional identifique a ansiedade como origem.
Um retrato do Brasil e do mundo
Os números impressionam. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a população com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo: cerca de 9,3% dos brasileiros — aproximadamente 18,6 milhões de pessoas — conviviam com o transtorno nos dados mais recentes analisados. A pesquisa Covitel 2023, do Observatório da Saúde Pública, apontou que 26,8% da população brasileira apresenta diagnóstico de ansiedade. No mundo, a OMS estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental, sendo a ansiedade e a depressão as condições mais prevalentes; a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou cerca de 25% desde a pandemia de covid-19. Só o custo indireto da depressão e da ansiedade para a economia global chega a cerca de US$ 1 trilhão por ano. Números assim mostram que ansiedade não é frescura: é uma questão de saúde pública.
Por que algumas pessoas desenvolvem ansiedade?
Não existe uma causa única. O que a ciência mostra é uma combinação de fatores: genéticos (histórico familiar), biológicos (desequilíbrios nos sistemas de neurotransmissores que regulam o medo e o humor), psicológicos (traumas, estresse prolongado, perfeccionismo, estilo de vida) e sociais (pressão no trabalho, problemas financeiros, excesso de informações e notícias negativas). Algumas substâncias também influenciam: o consumo excessivo de cafeína, bebidas alcoólicas e outras drogas pode intensificar — ou até simular — crises de ansiedade, assim como certas condições de saúde, como alterações da tireoide. Por isso, a avaliação médica completa é tão importante antes de qualquer conclusão.
Tratamento: existe, funciona e transforma vidas
A boa notícia é que os transtornos de ansiedade estão entre as condições psiquiátricas com melhor resposta ao tratamento. As principais abordagens, que podem ser combinadas, são:
Psicoeducação: entender o que é a ansiedade e como ela funciona no corpo — frequentemente, o primeiro e mais poderoso remédio.
Psicoterapia: a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem mais estudada e eficaz, ajudando a identificar e modificar pensamentos e comportamentos que alimentam o medo.
Medicação: em casos moderados a graves, medicamentos podem ser indicados, com destaque para os antidepressivos modernos, que não causam dependência. Ansiolíticos (benzodiazepínicos) são usados apenas em situações pontuais e por curto período, pelo risco de dependência. Nunca se automedique: qualquer medicação precisa de prescrição e acompanhamento médico.
Mudanças no estilo de vida: sono regular, atividade física (estudos mostram que o exercício tem efeito comparável ao de medicamentos em casos leves a moderados), redução de cafeína e álcool, alimentação equilibrada, técnicas de respiração, mindfulness, menos tempo de telas e de notícias negativas, além de lazer e convívio social.
Uma técnica simples que ajuda no momento da crise é a respiração quadrada: inspire pelo nariz contando até 4, segure o ar contando até 4, solte pela boca contando até 4 e fique em pausa contando até 4. Repetir esse ciclo por dois ou três minutos reduz a ativação do corpo e ajuda a mente a se acalmar.
Mitos que precisam cair
“Ansiedade é frescura ou falta de Deus.” Ansiedade é uma condição médica real, com base biológica, e merece o mesmo respeito de qualquer doença. A fé e o tratamento não são concorrentes: eles podem caminhar juntos.
“Remédio para ansiedade vicia e muda a personalidade.” Os antidepressivos modernos não causam dependência e não mudam quem a pessoa é — ajudam a pessoa a voltar a ser quem ela é. Ansiolíticos exigem cautela, mas sempre sob orientação médica.
“Posso parar o remédio quando me sentir melhor.” Interromper por conta própria pode causar recaída e sintomas desagradáveis. A suspensão deve ser sempre orientada pelo médico.
“Quem tem ansiedade não consegue levar uma vida normal.” Com tratamento adequado, a grande maioria das pessoas retoma a rotina, os sonhos e a liberdade de viver.
Quando procurar ajuda
Procure um psiquiatra (ou seu médico de confiança) se a ansiedade estiver: atrapalhando o trabalho, os estudos ou os relacionamentos; provocando insônia, irritabilidade e cansaço constantes; causando crises frequentes; levando você a evitar situações que antes enfrentava com naturalidade; ou gerando sintomas físicos sem explicação. E um alerta importante: se houver pensamentos de que a vida não vale a pena ou de se machucar, busque ajuda imediatamente — ligue 188 (CVV, Centro de Valorização da Vida, gratuito e 24 horas) ou procure um serviço de emergência. Você não precisa passar por isso sozinho.
Mensagem final
A ansiedade não é fraqueza, não é defeito de caráter e não precisa ser enfrentada em silêncio. Ela é um sinal de que o corpo e a mente estão pedindo atenção — e, principalmente, ela tem tratamento. Procurar um psiquiatra não é motivo de vergonha: é um ato de coragem e de cuidado consigo mesmo. Tratar a ansiedade é devolver à pessoa o direito de viver com leveza, sono tranquilo e coragem para os desafios do dia a dia. Se você se identificou com este texto, dê o primeiro passo. Sua mente merece esse cuidado.
DR. ALANCASTER SILVERIO DE ASSIS ANDRE, MÉDICO PSIQUIATRIA,
ATENDIMENTOS ONLINE E PRESENCIAL ATRAVÉS DO NUMERO (17) 991458279



