Por Alexandre Angélico
Matemático e Economista
Quem acompanhou o noticiário após as eleições viu uma cena rara: o dólar disparou, a bolsa caiu fortemente e a B3 chegou a interromper temporariamente as negociações. Para muita gente, surgiu a pergunta: se nenhuma lei mudou da noite para o dia e as empresas continuaram funcionando normalmente, por que a reação foi tão intensa?
A resposta está em um conceito fundamental da economia: os mercados não negociam apenas o presente; negociam expectativas sobre o futuro. Investidores compram e vendem ativos com base no que acreditam que acontecerá nos próximos meses e anos. Quando essas expectativas mudam de forma brusca, os preços também mudam.
Antes do segundo turno, uma parcela significativa do mercado apostava em um resultado diferente. A reeleição de Lula surpreendeu parte dos investidores, que passaram a rever rapidamente suas projeções para inflação, juros, dívida pública e gastos do governo. Essa mudança de percepção provocou uma corrida para reajustar posições, pressionando o dólar e derrubando o valor das ações.
Um dos reflexos mais visíveis foi o acionamento do chamado circuit breaker da B3. O circuit breaker funciona como um disjuntor de segurança: quando a queda da bolsa atinge um determinado limite em pouco tempo, as negociações são interrompidas temporariamente. O objetivo é dar aos investidores alguns minutos para analisar informações, reduzir reações emocionais e evitar movimentos de pânico que possam causar distorções ainda maiores nos preços. Durante a forte reação ao resultado eleitoral, esse mecanismo precisou ser utilizado.
É importante entender que isso não significa que a economia brasileira tenha piorado instantaneamente. Empresas continuaram produzindo, trabalhadores continuaram trabalhando e lojas abriram normalmente no dia seguinte. O que mudou foi a percepção de risco de uma parcela dos agentes econômicos.
Outro aspecto interessante é que até mesmo o mercado pode errar. Muitas pessoas imaginam que investidores profissionais conseguem prever o futuro com precisão. Não conseguem. Quando uma expectativa amplamente compartilhada não se confirma, as correções costumam ser rápidas e intensas. Foi exatamente isso que aconteceu após a divulgação do resultado eleitoral.
Nos próximos meses, porém, o foco deixará de ser a eleição. O mercado passará a observar fatores mais concretos: controle dos gastos públicos, trajetória da dívida, inflação, crescimento econômico e capacidade de articulação política do governo. No longo prazo, são esses elementos que determinam o comportamento do dólar, da bolsa e dos juros.
A principal lição é simples: na economia, expectativas podem ser tão importantes quanto os fatos. E entender isso ajuda a explicar por que uma eleição é capaz de movimentar bilhões de reais antes mesmo que qualquer medida econômica seja colocada em prática.
Alexandre Angélico
@alexandreangelico
Alexandre Angélico é Matemático e Economista formado pela USP e Mestre em Economia dos Mercados pelo Mackenzie.



