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O funeral do casamento- uma fábula sobre aquilo que decidimos enterrar quando já não sabemos como transformar

admin por admin
2 novembro , 2026
em Destaques, Terapia de Casal, Últimas Notícias
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O funeral do casamento- uma fábula sobre aquilo que decidimos enterrar quando já não sabemos como transformar

Por Bia Rossatti 

Terapeuta Familiar Sistêmica  @biarossattiterapeuta

 

Muito antes de um casal pronunciar a palavra separação, alguma coisa já pode ter deixado de ser escutada. Um silêncio passa a significar desprezo. Uma pergunta vira acusação. Uma tentativa de aproximação é recebida como cobrança. E duas pessoas que compartilharam uma vida inteira começam a se comportar como se falassem idiomas diferentes.

Quando isso acontece, é tentador concluir que o amor acabou. Mas será que acabou mesmo? Ou será que já não sabemos como encontrá-lo debaixo de tantas mágoas? Neste Dia de Finados, para abrir nossa coluna sobre vida a dois, proponho uma visita a um funeral muito particular.

 

A cidade que decidiu enterrar o casamento – uma fábula curta

Era uma vez uma cidade onde os casamentos duravam muitos anos. Havia fotografias nas paredes, filhos correndo pelos corredores, contas divididas, viagens adiadas, sonhos realizados e outros abandonados pelo caminho. Por muito tempo, seus habitantes acreditaram que permanecer juntos era suficiente para manter uma relação viva.

Até que começaram a aparecer as histórias de solidão a dois. Mulheres que se sentiam invisíveis dentro de casa. Homens que já não sabiam como se aproximar sem provocar uma discussão. Casais que dividiam o mesmo teto, a mesma mesa e as mesmas responsabilidades, mas já não compartilhavam a intimidade de antes. As discussões se repetiam. As tentativas de reconciliação duravam pouco. O ressentimento ocupava os espaços que antes pertenciam à cumplicidade. 

Foi então que surgiu uma ideia aparentemente libertadora: se o casamento produzia tanta dor, talvez o melhor fosse enterrá-lo. Na praça principal, organizaram um funeral. Havia flores, discursos e pessoas convencidas de que estavam finalmente se libertando de uma instituição incapaz de acompanhar os novos tempos.

Entre elas estava Helena. Aos 46 anos, ela carregava uma pergunta que não conseguia responder: como era possível ter construído tanta coisa com alguém e, ainda assim, sentir-se tão sozinha?

Helena não queria voltar a viver uma relação que a diminuía. Não desejava continuar engolindo palavras, adiando necessidades ou confundindo sacrifício com amor. Mas também não sabia se estava pronta para desistir de uma história que, apesar das feridas, ainda tinha significado. E note, isso podia ser também o que seu cônjuge pensava!

Ela queria liberdade. Queria respeito. Queria voltar a se reconhecer. E, no meio de tantas certezas proclamadas naquela praça, era justamente sua dúvida que a tornava humana.

 

O Grande Desconstrutor

No centro da cerimônia estava o Grande Desconstrutor, um personagem que conhecia muito bem os defeitos das instituições herdadas. Ele apontava as injustiças, os papéis impostos, as desigualdades e as promessas que nunca se cumpriam. Em muitas de suas críticas, havia verdades que precisavam ser ouvidas.

O problema começou quando ele passou a tratar toda herança como prisão e toda permanência como atraso. Se havia sofrimento, era preciso romper. Se havia conflito, era sinal de incompatibilidade. Se a relação exigia esforço, talvez fosse porque não deveria existir.

Ninguém parecia interessado em perguntar se algumas estruturas precisavam ser transformadas, se determinados comportamentos poderiam ser abandonados ou se duas pessoas ainda tinham condições de construir uma maneira mais saudável de viver juntas. O Grande Desconstrutor conhecia a arte de derrubar paredes. Mas não sabia o que fazer com os escombros. Óbvio demais!

E a cidade inteira começou a acreditar que a saída era libertar-se de uma relação destrutiva e desistir de uma relação que nem se questionavam se ainda poderia ser reconstruída.

Helena observava tudo em silêncio. Ela sabia que nem todo casamento merece ser preservado. Conhecia o peso de uma convivência que fere, da falta de respeito e da solidão que adoece. Não queria transformar a permanência em obrigação moral. Mas havia algo que a incomodava: por que ninguém falava sobre a possibilidade de mudar antes de decretar a morte?

 

Quando o amor perde a linguagem

Naquela noite, Helena se lembrou de uma música – a música tema do filme Gladiador, aquela em que Máximos morto covardemente volta para os campos elíseos e reencontra sua mulher e filhos. Os dois costumavam ouvir esta música juntos. Não se recordava de todas as palavras, nem precisava delas, mesmo porque a língua dessa música só existiu na mente da artista que a cantou. Mas fez Helena lembrar-se de como se sentia quando os dois ainda conseguiam permanecer juntos sem precisar provar quem tinha razão.

A música não apagava as dificuldades do presente. Também não era uma evidência de que o casamento deveria continuar. Era apenas uma lembrança de que existira uma linguagem entre eles — uma maneira de se reconhecerem que talvez tivesse sido soterrada pelas obrigações, pelas frustrações e pelas feridas acumuladas.

Helena começou a pensar no que acontece quando um casal perde essa linguagem. Na terapia de casal, aprendemos a olhar para além da discussão aparente. Às vezes, por trás da crítica de um parceiro, existe uma tentativa desesperada de ser considerado. Por trás do afastamento do outro, pode haver medo de falhar novamente, exaustão ou a sensação de que qualquer conversa terminará em conflito.

Isso não significa justificar comportamentos que machucam, nem presumir que toda agressividade esconde amor. Significa investigar o que sustenta o padrão de interação, reconhecer responsabilidades e avaliar se existe disposição real para mudá-lo. A traição, o dinheiro, a criação dos filhos, as relações com as famílias de origem e as decisões sobre o patrimônio podem se tornar campos de batalha. Mas a pergunta terapêutica não se limita a descobrir quem está certo.

Precisamos compreender como aquele casal chegou até ali, o que cada um está fazendo para manter o ciclo e o que precisaria mudar para que uma convivência diferente se tornasse possível. Não basta apenas sentir. É preciso aprender a traduzir sentimentos em palavras, limites, atitudes e responsabilidade. Talvez seja isso que a música de Gladiador nos ajude a recordar: a experiência humana é maior do que aquilo que conseguimos explicar imediatamente. Escutar exige disponibilidade para reconhecer o que ainda não compreendemos.

No casamento, porém, essa escuta precisa ser acompanhada de respeito, reciprocidade e segurança. Não se reconstrói uma relação sozinho.

 

O que deveria ser enterrado

Na manhã seguinte ao funeral, Helena voltou à praça. As flores estavam murchas. Os discursos haviam terminado. O casamento, simbolicamente enterrado, já não podia mais responder às perguntas que ficaram sem resposta. Ela se aproximou do túmulo e percebeu que não queria ressuscitar tudo o que havia existido.

Queria enterrar a ideia de que amar significa suportar qualquer coisa. Queria enterrar o silêncio usado como punição, o orgulho que impede um pedido de desculpas, a competição para decidir quem sofreu mais e a crença de que mudar é admitir derrota. Queria enterrar os papéis que obrigavam um a desaparecer para que o outro ocupasse todo o espaço. Mas não queria enterrar a possibilidade de construir uma relação em que ambos pudessem existir por inteiro.

Naquele instante, Helena compreendeu que o verdadeiro funeral talvez não devesse ser o do casamento, mas o de tudo aquilo que, dentro dele, já não permitia que duas pessoas se encontrassem. E essa descoberta não lhe deu uma resposta definitiva sobre o próprio futuro. Ela ainda precisaria avaliar sua história, seus limites, a disposição do marido e as condições concretas de uma possível reconstrução.

Mas, pela primeira vez, entendeu que não precisava decidir entre aceitar tudo como estava e destruir tudo o que havia sido construído. Existia uma terceira tarefa: olhar para a realidade, reconhecer o que precisava terminar e descobrir se ainda havia algo que os dois estivessem dispostos e fossem capazes de transformar. 

 

O casamento não precisa de um funeral. 

Precisa de uma revisão honesta. O casamento não é uma instituição imune ao tempo. Precisa ser revisto, amadurecido e reconstruído à medida que as pessoas mudam. Uma relação saudável não exige que duas pessoas se tornem uma só. Exige que aprendam a compartilhar a vida sem que nenhuma delas precise deixar de existir.

Isso não significa defender a permanência a qualquer preço. Há situações em que o afastamento é necessário, especialmente quando existe violência, coerção ou risco à integridade física e emocional. Nesses casos, a prioridade é a proteção, e a reconstrução do relacionamento não pode ser tratada como obrigação.

Também não significa que todo casal em crise conseguirá permanecer junto. Algumas histórias chegam ao fim, e esse fim pode ser vivido com responsabilidade, dignidade e cuidado com os filhos e com tudo o que foi compartilhado. Mas há casais que chegam à beira da separação sem terem compreendido inteiramente o que os trouxe até ali. Para eles, buscar ajuda antes de uma decisão definitiva pode abrir um espaço de clareza: não uma promessa de salvação, mas a oportunidade de descobrir se existe um caminho possível.

É esse o trabalho que defendo como terapeuta sistêmica: ajudar o casal a enxergar a dinâmica em que está preso, compreender as responsabilidades de cada um e avaliar, com honestidade, se há condições para uma mudança real. Antes do fim, pode existir um caminho de clareza. E a clareza pode conduzir tanto a uma reconstrução conjunta quanto a uma separação mais consciente.

O que não deveria acontecer é uma vida inteira ser reduzida a uma sentença apressada, sem que se tenha compreendido o que ainda está vivo, o que já morreu e o que precisa mudar.

 

Uma pergunta para levar para casa

Talvez você conheça um casal que vive assim. Talvez reconheça sua própria história nestas linhas. Se ainda existe dúvida, vale perguntar:

Estamos querendo terminar o casamento ou estamos desesperados para terminar a maneira como temos vivido dentro dele? As respostas podem ser diferentes. E essa diferença merece ser investigada com coragem, sem promessas fáceis e sem julgamentos.

Neste Dia de Finados, não proponho celebrar a morte do casamento nem idealizar sua permanência. Proponho refletir sobre aquilo que enterramos quando deixamos de acreditar que uma relação pode mudar — e sobre aquilo que precisamos deixar morrer para que uma vida a dois possa voltar a fazer sentido.

Porque o verdadeiro compromisso não exige que duas pessoas se tornem uma só. Exige que duas pessoas inteiras decidam, livremente e com responsabilidade, se ainda querem construir algo juntas. E, antes de fechar definitivamente a porta, talvez valha a pena descobrir se o que terminou foi o amor — ou a maneira como vocês aprenderam a vivê-lo.

Faz sentido pra você? Se fez acompanhe nossa coluna no Portal Som de Papo. 

 

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