Por André Henrique
A escolha de Belém, no Pará, como sede da COP30 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2025, foi recebida com expectativa internacional. Realizar o evento que pretende debater soluções para a crise climática em pleno coração da Amazônia parece simbólico: uma oportunidade de mostrar ao mundo tanto os desafios quanto as riquezas do bioma. Mas esse cenário também escancara um paradoxo preocupante: preparar Belém para acolher os participantes parece implicar, ao mesmo tempo, ações de infraestrutura que agravam a devastação que a conferência pretende combater.
O que se sabe até agora
O Pará tem liderado o desmatamento no Brasil nos últimos anos — de 2019 a 2024, foram mais de 2 milhões de hectares desmatados somente nesse estado.
Uma das obras mais criticadas é a Avenida Liberdade, estrada de quatro pistas com cerca de 13 km, construída para melhorar mobilidade urbana em Belém, mas que atravessa zonas protegidas da floresta Amazônica.
Também se destacam denúncias de destruição de vegetação nos arredores da cidade para outras obras urbanas: por exemplo, foram destruídos equivalentes a 107 campos de futebol de floresta para obras da Avenida Liberdade em APA Belém — Área de Proteção Ambiental da Região Metropolitana.
Indígenas, comunidades tradicionais e sociedade civil apontam que não foram devidamente consultadas em muitas dessas intervenções, contrariando princípios de participação e proteção ambiental.
Paradoxo entre discurso e prática
A realização da COP30 em Belém é anunciada como uma demonstração de compromisso do Brasil com a preservação da Amazônia, com participação de comunidades indígenas e ambientalistas, e com promessas de melhoria de políticas públicas para enfrentamento do desmatamento.
No entanto, ao mesmo tempo em que se preparam com slogans e discursos de proteção ambiental, ocorrem obras que contradizem diretamente os propósitos climáticos:
Estradas cortando florestas;
Vegetação nativa sendo removida sem critérios claros de compensação;
Impactos sobre rios, fauna e modo de vida de comunidades ribeirinhas.
Esse descompasso expõe uma falha comum em grandes eventos climáticos: a tendência de construir infraestrutura para impressionar visitantes ou atender demandas de logística, mas com baixo rigor ambiental e participação social.
Consequências ambientais e sociais
Ambientais
Fragmentação de habitats, que leva à perda de espécies e dificulta sua movimentação natural.
Aumento da emissão de gases de efeito estufa, tanto pela remoção de vegetação quanto pela perturbação do solo e da cascata de carbono armazenado.
Alteração de regimes hídricos, degradação de solos, erosão e impactos sobre as nascentes que abastecem populações locais.
Sociais
Comunidades indígenas e ribeirinhas frequentemente têm seus territórios invadidos ou afetados sem consulta ou compensação adequada.
Perda de modos tradicionais de vida, como coleta de frutos ou plantas, pesca local, agricultura de subsistência.
Aumento de desigualdades, frente ao fato de que boa parte dos benefícios das obras de infraestrutura tende a atender interesses turísticos, diplomáticos ou de elites urbanas, e não necessariamente da população local.
O que deveria ser feito
Para que a COP30 em Belém não seja apenas um “evento de fachada” — declamação de boas intenções com destruição silenciosa —, algumas ações urgentes se impõem:
Avaliação ambiental rigorosa e participativa: auditorias independentes, consulta às comunidades locais antes do início de qualquer obra.
Compensações ambientais reais: não basta plantar mudas; é preciso restaurar ecossistemas degradados e garantir conectividade entre fragmentos florestais.
Transparência total nas obras e nos impactos: divulgação clara dos mapas, dos estudos de impacto, dos custos, dos prazos.
Proteção legal e fiscalização: que as normas ambientais, estaduais, federais e indígenas sejam respeitadas, sem exceções.
Legado sustentável: que as construções e melhorias deixem benefícios permanentes para Belém e para o Pará — melhoria urbana, saneamento, transporte público, serviços sociais — e não se convertam em elefantes brancos ou prejuízo ambiental.
Conclusão
A COP30 pode ser uma vitrine global da Amazônia ou um palco de hipocrisia ambiental. Está nas decisões que o Brasil está tomando agora. Se obras de infraestrutura que destroem floresta forem mantidas sem freios, se comunidades continuarem sendo ignoradas, se as promessas só forem retóricas, o que virá não será legado, mas cicatriz ecológica.
Belém deveria ser o lugar em que o mundo vê a floresta viva, não uma Amazônia mutilada pelas obras para receber diplomatas. O tempo para escolher é agora e é urgente que as escolhas reflitam não o poder da imagem, mas o poder da preservação.
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



