Por Eneida Bonanza
@eneidabonanza
Você já se pegou com os ombros elevados, a mandíbula travada, a respiração curta e superficial, mesmo em situações comuns do cotidiano?
Esse é um sinal de que seu corpo pode estar operando em modo de sobrevivência — um estado de alerta crônico, muitas vezes imperceptível, mas profundamente impactante.
A origem desse estado raramente é consciente.
Ele se instala aos poucos, a partir de uma série de experiências que moldam a forma como o corpo percebe o mundo:
Uma educação baseada no medo (“cuidado com o mundo”, “não confie em ninguém”, “vai acontecer algo ruim se você…”)
Exposição repetida a notícias trágicas ou traumáticas
Vivência de perdas repentinas ou traumas não elaborados
Ambientes familiares instáveis emocionalmente
Ou até mesmo traumas transgeracionais, que se transmitem por lealdade sistêmica e epigenética
A neurociência já demonstrou que o trauma não está no evento em si, mas no que acontece no corpo diante do evento.
Segundo o psiquiatra e pesquisador Bessel van der Kolk, autor do renomado O Corpo Guarda as Marcas, “quando a resposta de luta ou fuga não consegue se completar, o corpo congela, e esse congelamento se torna uma prisão fisiológica.”
O sistema nervoso autônomo — especialmente o ramo simpático — permanece ativado, fazendo com que o organismo libere cortisol e adrenalina de forma contínua.
Ao longo do tempo, esse estado gera desequilíbrios hormonais, desregulação imunológica, distúrbios intestinais e alterações no sono, como mostra a literatura sobre estresse crônico (Sapolsky, 2004).
Consequências comuns do estado de alerta crônico incluem:
Tensão muscular persistente (ombros, cervical, mandíbula, lombar)
Dores crônicas sem causa clínica evidente
Insônia ou sono não restaurador
Irritabilidade, hiperreatividade emocional
Dificuldade de concentração e memória
Sensação de vazio ou ausência de prazer na vida (anedonia)
A ausência de relaxamento profundo impede a regulação do sistema nervoso parassimpático — aquele responsável pela digestão, recuperação e prazer.
É como se o corpo tivesse esquecido que está seguro.
É como se relaxar fosse perigoso.
Mas há caminhos terapêuticos para restaurar essa confiança e reconectar o corpo com a vida.
Na prática clínica integrativa, utilizamos abordagens que dialogam com o corpo, a mente e o campo emocional:
Microfisioterapia: método francês que acessa traumas registrados no tecido corporal e estimula a autorregulação
Leitura Biológica: identifica o sentido oculto por trás do sintoma físico, conectando-o ao conflito emocional específico
TICS – Terapia Integrativa de Conexão Sistêmica: abordagem desenvolvida por mim, que integra acupuntura emocional, leitura biológica, constelação familiar e análise de dependência emocional
Psicoterapia com abordagem somática ou sistêmica: ajuda a reorganizar a narrativa interna e processar memórias traumáticas
Terapias corporais e reguladoras do sistema nervoso, como DNM (dermoneuromodulação), meditação guiada, respiração consciente e biofeedback
Além disso, práticas diárias de autocuidado, como caminhada ao ar livre, silêncio intencional, escuta do próprio corpo e descanso de estímulos digitais, também são poderosos aliados na redução do estado de alerta.
Lembre-se:
Desligar o estado de alerta não é se tornar vulnerável.
É deixar o corpo aprender, pouco a pouco, que ele pode confiar.
Que o perigo passou.
Que há vida para além da sobrevivência.
Você merece mais do que apenas aguentar.
Você pode viver com presença, prazer e paz.
Referências complementares:
Van der Kolk, B. (2015). O Corpo Guarda as Marcas
Sapolsky, R. (2004). Why Zebras Don’t Get Ulcers
Porges, S. (2011). A Teoria Polivagal
Rosenberg, S. (2017). O Poder Curativo do Nervo Vago



