Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
Nem sempre o problema está no que acontece, mas na dificuldade de aceitar quando as coisas não acontecem como gostaríamos.
Ao longo da vida, somos inevitavelmente atravessados por frustrações. Elas fazem parte da experiência humana e surgem, sobretudo, quando há um desencontro entre aquilo que desejamos e aquilo que a realidade nos oferece.
A baixa tolerância à frustração aparece justamente nesse ponto: quando se torna difícil sustentar o desconforto emocional diante dos limites da vida. Mais do que um incômodo passageiro, trata-se de uma dificuldade em lidar com o “não”, com o inesperado e com aquilo que foge ao nosso controle.
Em muitos casos, esse funcionamento reflete um desenvolvimento ainda insuficiente de habilidades de regulação emocional e de aceitação da realidade. Desejamos algo de uma forma específica e resistimos quando o mundo se apresenta de maneira diferente.
Por vezes, esquecemos que o mundo não gira em torno de nós, mas segue sua própria dinâmica. O outro possui desejos, limites e direitos tanto quanto nós. Quando perdemos isso de vista, nossos desejos podem se transformar em exigências — e passamos a esperar que a realidade se ajuste à nossa vontade.
Também é comum confundirmos dignidade com controle — como se sermos respeitados implicasse que tudo deveria acontecer conforme esperamos. No entanto, dignidade diz respeito ao valor que temos enquanto pessoa, não ao poder de determinar os acontecimentos.
Outro aspecto relevante é a busca por uma vida sem limites. Em uma cultura que frequentemente reforça a ideia de que “podemos tudo”, cresce a expectativa de controle absoluto sobre os resultados. Mas a realidade impõe barreiras: nem tudo depende de nós, nem tudo é possível, nem tudo acontece no nosso tempo.
Quando essa diferença não é bem elaborada, a frustração deixa de ser uma emoção transitória e passa a ser vivida como injustiça, rejeição ou falha pessoal. Surge, então, a tentativa de controlar o incontrolável — o outro, as circunstâncias e o próprio curso da vida.
O amadurecimento psicológico acontece no movimento oposto.
Ele envolve reconhecer limites, diferenciar desejo de direito e desenvolver a capacidade de sustentar emoções desconfortáveis sem reagir de forma impulsiva. Aceitar não significa concordar ou se conformar, mas compreender que nem tudo está sob nosso controle — e que isso faz parte da vida.
Aprender a lidar com a frustração é, portanto, aprender a viver de forma mais realista e mais saudável. É abrir espaço para a flexibilidade, para o diálogo com o outro e para escolhas mais conscientes.
Amadurecer não é fazer com que a vida aconteça como queremos — é desenvolver recursos para lidar quando ela não acontece.
E você, como tem lidado com aquilo que não sai como o esperado?
Referências
BECK, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2013.
ELLIS, A.; DRYDEN, W. The Practice of Rational Emotive Behavior Therapy. New York: Springer, 1997.
LINEHAN, M. M. Terapia Comportamental Dialética: guia prático. Porto Alegre: Artmed, 2010.
YOUNG, J. E.; KLOSKO, J. S.; WEISHAAR, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Sobre o autor
João Costa Bezerra é psicólogo clínico e especialista em Saúde Mental. Atua com uma abordagem integrativa, utilizando técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia do Esquema e Psicologia Analítica. Atende crianças, adolescentes e adultos, com foco em regulação emocional, autoconhecimento e desenvolvimento psicológico. Realiza atendimentos presenciais e online.



