Por Karen Goldberg
Planejar cidades nunca foi só uma questão de onde vai a rua passar ou onde vai ficar o jardim. É sobre como a gente vive e o direito de viver bem.
No século XIX, dois nomes ajudaram a moldar essa ideia: Ildefonso Cerdà, em Barcelona, e o barão Haussmann, em Paris. Cada um com sua lente, seu contexto e suas intenções.
Cerdà era engenheiro e visionário. Em 1859, propôs um plano de expansão para Barcelona que ia muito além do traçado urbano. Ele queria ar, luz, área verde, e uma cidade mais humana. A proposta de ruas largas em grade, quadras ventiladas e integração com a natureza era quase utópica para a época. Especialmente se compararmos com o bairro Gótico, onde as ruas estreitas e construções desordenadas criavam um cenário caótico e insalubre. Hoje em dia, o bairro Gótico é charmoso e lotado de turistas, mas naquele tempo não havia qualquer lógica de crescimento ou bem-estar.
Enquanto isso, em Paris, Haussmann liderava uma reforma de impacto. Sob o comando de Napoleão III, redesenhou o centro da cidade com grandes avenidas, praças e uma arquitetura homogênea que virou símbolo da capital francesa. A ideia era trazer modernidade, ordem e circulação. Funcionou. Mas custou caro: bairros inteiros foram demolidos, populações mais pobres foram expulsas para as periferias.
Cerdà queria integrar. Haussmann, controlar. Um pensava em saúde pública, o outro em fluidez e poder. Os dois transformaram cidades e deixaram lições que ainda ignoramos em pleno século XXI.
Afinal, o que a gente espera de uma cidade hoje? Mais ar puro ou tráfego fluido? Convivência ou performance? Espaços para todos ou só para alguns?
Urbanismo não é só desenho técnico. É escolha política, social e humana. E talvez, ao olharmos para esses dois legados, a pergunta mais honesta que podemos fazer seja: o que a gente quer repetir e o que já passou da hora de superar?
Até a próxima.
Arq. Karen Goldberg
@kaparquitetura
Karen Goldberg é arquiteta e urbanista formada pela PUC-Rio desde 2009. À frente da Kapa Arquitetura, seu trabalho é ajudar pessoas a viverem em espaços com significado — unindo estética, identidade e propósito em cada projeto.



