Por Eneida Bonza
Enquanto o mundo corre, apressado em suas reuniões, metas e entregas, há um tipo de trabalho que não se registra em ponto eletrônico, nem aparece nas colunas do PIB — mas que sustenta a base da economia real. É o trabalho de cuidar.
Cuidar é preparar o café enquanto o outro dorme. É atender o choro no meio da noite. É acompanhar o idoso ao médico. É reorganizar a vida quando uma criança adoece. É segurar o mundo com as mãos, mesmo que o mundo não veja.
No entanto, esse trabalho não é gratuito — ele apenas não é pago.
Segundo a Oxfam, mulheres e meninas no mundo dedicam diariamente mais de 12,5 bilhões de horas a cuidados não remunerados. Se fossem pagas com um salário-mínimo por hora, isso equivaleria a US$ 10,8 trilhões por ano — mais que três vezes o valor do mercado global de tecnologia. Uma cifra colossal sustentada por afeto, obrigação, desigualdade e silêncio.
No Brasil, o cenário é igualmente gritante e silencioso. Em média, mulheres gastam mais que o triplo do tempo dos homens em atividades domésticas e de cuidado. O IBGE aponta que essa diferença é de 21,4 horas semanais para elas contra 11 horas para eles. Um fardo invisível que impede o avanço profissional, o descanso e até o direito de existir para além do serviço.
O resultado é que 42% das mulheres em idade produtiva não conseguem ingressar no mercado formal de trabalho por estarem sobrecarregadas com cuidados familiares — um número seis vezes maior que o dos homens. Isso não é acaso. É sistema.
Essa economia invisível representa uma parte significativa da riqueza que circula no país, embora não esteja nas planilhas dos ministérios. Estudos do PNUD e da Cepal indicam que, na América Latina, o trabalho doméstico e de cuidado equivale a entre 21% e 24% do PIB. Um valor maior que o de muitos setores formais da economia, mas que segue oculto sob o véu do “natural”.
Porque quando o cuidado é feito por amor, a sociedade entende que não precisa ser pago.
Mas amor e exploração não são a mesma coisa.
Cuidar é sagrado. Mas romantizar o sacrifício de mulheres — mães, filhas, esposas, irmãs — é perpetuar uma estrutura que adoece. O corpo feminino vem sendo há séculos o templo do esforço silencioso, da renúncia não escolhida, da exaustão invisibilizada.
A ausência de creches, centros de apoio a idosos, licenças parentais igualitárias e políticas públicas estruturadas não é uma falha ocasional. É um reflexo direto da invisibilidade dessa economia. O cuidado não entra nos cálculos porque quem cuida raramente é ouvido.
Enquanto isso, países que reconheceram e integraram a economia do cuidado às suas políticas têm colhido frutos de maior equidade e crescimento. Um estudo da McKinsey estimou que compensar legalmente esse trabalho adicionaria US$ 12 trilhões ao PIB global — o equivalente à economia da China em um ano.
Não é utopia. É urgência.
O cuidado precisa deixar de ser um dom privado e se tornar uma responsabilidade coletiva. Um compromisso social. Porque só haverá rede de apoio quando houver reconhecimento. E só haverá reconhecimento quando a sociedade inteira enxergar que, por trás de cada profissional produtivo, existe alguém que cuidou para que ele pudesse produzir.
Essa pessoa, quase sempre, é uma mulher.
Que sigamos, então, com o compromisso de tornar visível o que por tempo demais foi ignorado. Porque a verdadeira transformação social começa na base. E a base é quem cuida.
Se essa reflexão tocou você, te convido a continuar a jornada comigo no integram @eneidabonanza, onde trago temas como esse com o olhar da saúde humanizada



