Por Eneida Bonanza
Desde os primeiros dias de vida, buscamos previsibilidade.
Um bebê que chora e é acolhido compreende — ainda que sem palavras — que o mundo é minimamente seguro.
Mas o bebê que chora e encontra vazio, silêncio ou tensão… aprende cedo que o mundo é instável.
É nesse lugar, às vezes muito antes da fala, que nasce a necessidade de controle.
Controlar é, acima de tudo, uma resposta ao medo.
A mente humana, em sua sofisticação evolutiva, desenvolveu um sofisticado sistema de antecipação de perigos: o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, previsão e tomada de decisões.
É esse mesmo sistema que, quando desregulado por estresse, ansiedade ou trauma, transforma o controle em compulsão.
O cérebro busca padrões, lógica e domínio como forma de proteção psíquica.
Quer evitar a dor de novo.
Quer evitar a surpresa do que doeu.
Segundo um estudo da Universidade de Yale (Paul Bloom, 2010), a previsibilidade ativa o sistema de recompensa do cérebro — especialmente os circuitos de dopamina.
Ou seja, quanto mais acreditamos estar no controle, mais nosso cérebro nos recompensa com sensações de bem-estar e segurança.
Não é exagero dizer que controlar se torna um tipo de dependência neuroquímica.
E como toda dependência, cobra seu preço: exaustão, rigidez, ansiedade.
A tentativa de controle surge, portanto, como uma estratégia psíquica de sobrevivência emocional.
É o mecanismo que diz:
“Se eu souber exatamente o que fazer, ninguém me abandona.”
“Se eu antecipar tudo, nada me fere.”
“Se eu tiver certeza, não serei rejeitado.”
Mas o paradoxo é cruel: quanto mais tentamos controlar, mais nos distanciamos da vida real.
A vida não cabe em roteiros nem se submete à nossa lógica.
Ela não está sob nosso domínio — e nem deveria estar.
Muitos transtornos ansiosos nascem do excesso de controle: TOC, ansiedade generalizada, fobias sociais.
E estudos indicam que pessoas com elevado desejo de controle apresentam maiores níveis de cortisol basal (hormônio do estresse), como aponta a pesquisa publicada no Journal of Anxiety Disorders (Desrosiers et al., 2013).
O custo fisiológico do controle é alto.
O corpo se tensiona, o sono se altera, a imunidade cai.
A alma endurece.
Soltar o controle é, portanto, um ato de coragem.
É dizer: “não sei o que virá, mas confio.”
É escolher a fluidez ao invés da rigidez.
É aceitar que o caos também é fértil.
E quando soltamos, começamos a perceber que a vida não conspira contra — ela apenas retira o que impede nossa verdade de florescer.
Exercício terapêutico: Diário da entrega consciente
Durante 7 noites, antes de dormir, escreva em seu caderno:
“Hoje, percebi que tentei controlar…” (identifique um momento, uma pessoa ou um sentimento).
“O que eu temia ao não controlar era…” (nomeie o medo real por trás da tentativa).
“Entrego esse controle à vida, confiando que o fluxo é mais sábio que minha rigidez.”
Respire fundo, imagine-se sendo envolvido por uma água morna e translúcida que leva com suavidade o peso que não é seu.
Deixe a vida fluir por você — sem resistência.
É na rendição consciente que mora a verdadeira força.
Se essa reflexão tocou algo em você, te convido a continuar caminhando comigo pelas trilhas da consciência e da escuta do corpo.
No meu perfil do Instagram @eneidabonanza, compartilho conteúdos terapêuticos, práticas integrativas, vídeos e vivências sobre os caminhos da saúde humanizada.
Será uma alegria ter você por lá.



