Por Eneida Bonanza
Há um gesto silencioso, muitas vezes incompreendido, que só o tempo revela em sua grandeza: o empurrão doce e firme que o pai dá para a vida.
Pai é esse solo firme que diz com o olhar: vai. Vai com coragem, vai com determinação. Sai debaixo das asas do lar, estica as próprias, aprende com o vento. Vai buscar o que é teu. Conquista. Desbrava. E se algo falhar, estarei aqui com o lastro. Eu sou o chão, mesmo que pareça distância.
Na visão sistêmica, o pai é a força que projeta. É ele quem aponta o horizonte. É ele quem nos apresenta ao mundo, ainda que em silêncio. Mesmo ausente, há algo dele em nós que nos conduz, como um código secreto que pulsa nas células, um mapa que nos move rumo à realização.
Nem sempre o pai foi presença. Às vezes foi ausência. E ainda assim, foi papel. Às vezes ele não soube amar, ou não pôde. Às vezes o que deu foi pouco… mas era tudo o que ele tinha. Porque também era um homem atravessado por suas próprias dores, limites, histórias e silêncios.
E quando não esteve, talvez tenha sido sua melhor forma de proteger. Porque a presença de um pai em desequilíbrio pode deixar marcas mais profundas do que sua partida. O abandono pode ter sido, paradoxalmente, a forma mais humana que ele encontrou de não ferir ainda mais.
Por isso, neste Dia dos Pais, celebramos os que ficaram. Os que tentaram. Os que erraram tentando acertar. E até os que não puderam ficar, porque, ainda assim, deram o essencial: a centelha da vida.
O pai nos deu 50% da nossa biologia. Isso já é grandioso. E reconhecer essa dádiva é um passo profundo na cura. Quando honramos essa origem, mesmo ferida, mesmo imperfeita, abrimos espaço dentro de nós para caminhar com mais força, leveza e presença no mundo.
E aos filhos que carregam queixas, feridas, vazios… saibam: é possível ressignificar. É possível se realinhar. O primeiro passo da reconexão pode, e muitas vezes precisa, partir de quem deseja a cura. Quando for possível, que esse passo encontre o outro. Mas quando não for, que ele seja dado para dentro, liberando o coração das mágoas para que a alma possa, enfim, seguir.
Porque quando a gente insiste em caminhar com a mochila cheia do que não foi, do que faltou, do que doeu, isso pesa nossas costas e entorta o rumo. Dói na coluna. Dói na alma. Mas quando a gente se permite esvaziar essa bagagem, com compaixão e lucidez, a vida se abre como um campo fértil e respirável. O caminho se alonga. A jornada floresce.
Por isso, para aqueles que ainda sentem conflito com a figura paterna, fica aqui o convite sutil e amoroso: ressignificar é fertilizar a terra da própria existência. É dar à vida a chance de prosperar com mais leveza, mais coragem, mais verdade.
Feliz Dia dos Pais aos que empurram com ternura, aos que sustentam com o olhar, aos que protegem em silêncio, aos que doaram o que podiam. E feliz Dia dos Pais também aos filhos que, ao curarem suas feridas, tornam-se eles mesmos canais de amor mais maduros, inteiros e libertos.
Com carinho,
Eneida Bonanza
@eneidabonanza



