Por Ramon Henrique
Essa expressão tão simples e tão carregada de sentido que a gente quase nem percebe o peso que tem.
Quando alguém diz “lá ele” tá mais do que apontar um lugar ou uma pessoa; é como se o tempo, o espaço e a situação se alinhassem num ponto específico.
Primeiro, tem o sentido literal: “lá” indica distância, algo que está fora do alcance imediato, e “ele” aponta o sujeito – pode ser um amigo que acabou de aparecer, um objeto que finalmente foi encontrado, ou até um acontecimento que se manifestou depois de um tempo.
Lá ele, a gíria que nasce nas ruas de Salvador e vira escudo de ginga baiana.
Quando a conversa começa a puxar um duplo sentido, a gente solta um “lá ele” bem alto, como quem joga a responsabilidade pra outra esquina.
É o jeito de dizer “sai fora”, “não rola” ou simplesmente “eu não” sem perder a leveza do axé que corre nas veias da cidade.
Mais que um simples “não”, o “lá ele” funciona como um convite à autodefesa, um “corta essa” que protege a moral e mantém o papo na boa.
Se a intenção é insinuar algo de conotação sexual, a resposta já vem na ponta da língua: “lá ele”, e o assunto se desloca pra quem quiser ouvir.
Assim, a gente neutraliza a insinução, devolve o foco e segue a festa, sem perder o ritmo do tambor.
Mas a gíria não para por aí. Ela também serve pra desviar desejos indesejados, pra mudar de assunto quando a situação tá pegando fogo.
É como um “tá bom, já deu” que chega com a suavidade do acarajé na feira, mas com a força de um berimbau.
No fundo, “lá ele” é a maneira baiana de proteger a vibe, de manter a boa energia e de garantir que a conversa continue rolando na leveza que só Salvador sabe dar.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/G1



