Por Jéssica Monteiro Lima
@ psicologa_jessicamonteirolima
Ela estava sentada na cama com o bebê nos braços.
A casa estava silenciosa, mas dentro dela havia um turbilhão de pensamentos.
Todos perguntavam sobre o bebê.
Se ele dormia bem.
Se estava mamando.
Quase ninguém perguntava como ela estava.
Quando um bebê chega, toda a família vive mudanças. Quem já passou por isso lembra bem. Quem ainda não passou provavelmente já presenciou na vida de alguém próximo.
O que nem sempre é tão visível é que, ao mesmo tempo em que nasce um bebê, a mulher também atravessa um período intenso de transformações físicas, emocionais e sociais chamado puerpério.
O puerpério é o período que começa logo após o nascimento do bebê e envolve uma série de transformações no corpo, nas emoções e na rotina da mulher. É um tempo de adaptação intensa, em que a mulher aprende a cuidar de um bebê ao mesmo tempo em que está vivenciando uma série de emoções e sentimentos intensos.
Medo de não dar conta, de não saber o que fazer, de não entender o seu bebê… e a sua vida de antes, nunca mais vai voltar? E o tal instinto materno de que tanto se fala, neste momento ela se questiona, os conselhos e falas de quem estão a sua volta, mesmo que com boas intenções, podem ser um gatilho que reforça a sua insegurança interna.
Estudos brasileiros apontam que cerca de 1 em cada 4 mulheres pode apresentar sintomas de depressão no período pós-parto. Os sintomas podem ser identificados ao longo da gestação. Além disso, muitas mulheres também enfrentam ansiedade, sobrecarga emocional e sentimentos ambivalentes, e nem sempre encontram espaço seguro e livre de julgamentos para serem falados.
Sentir cansaço extremo, insegurança, medo de não dar conta ou até momentos de tristeza não significa que essa mulher não ama seu filho. Significa que ela está atravessando um período de adaptação em que muitas mudanças acontecem ao mesmo tempo: no corpo, nas emoções, na rotina e na identidade como mulher e mãe.
Para muitos homens, o nascimento de um filho também inaugura uma nova identidade: a de pai. E, assim como acontece com as mulheres, esse processo também envolve aprendizados, dúvidas e adaptações.
Neste período de puerpério muitas vezes o parceiro deseja ajudar sua mulher, percebe que algo não está certo, mas não sabe exatamente como.
Por isso, precisamos falar mais sobre a saúde mental materna, pequenos gestos de apoio podem fazer com que uma mulher se sinta menos sozinha nesse período. O olhar atento de quem está ao redor, para ajudá-la inclusive a não esquecer de si mesma, de se alimentar, de se hidratar, de se cuidar, para que ela possa estar bem para cuidar do bebê e também se permitir ser cuidada.
Nos primeiros dias após o nascimento do bebê, muitas mulheres também podem vivenciar um período conhecido como baby blues. Esse momento costuma envolver choro fácil, maior sensibilidade emocional, cansaço, irritabilidade e sensação de sobrecarga. Em geral, esses sintomas aparecem nos primeiros dias e tendem a diminuir naturalmente.
Quando os sentimentos de tristeza, ansiedade intensa, culpa ou exaustão persistem e começam a afetar o bem-estar da mulher ou sua rotina, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante. Psicólogos, psiquiatras e equipes de saúde perinatal estão preparados para acolher e orientar nesse momento.
O tema de hoje foi inspirado na sugestão enviada por você leitora e leitor da coluna de Psicologia Perinatal, quero agradecer os elogios e interações de vocês em minha estreia aqui no SOM DE PAPO.
Se esse é um tema que toca você ou sua família, essa coluna também pode ser um espaço de conversa. Que outros temas sobre maternidade, paternidade e saúde emocional desta fase você gostaria de ver por aqui?
Fonte:
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); Ministério da Saúde; Pesquisa Nacional de Saúde – IBGE; estudos epidemiológicos sobre saúde mental materna no Brasil.



