A Estética do Mal: Quando a Narrativa Devora a Justiça.
Por Felipe Ribeiro Sant’Anna – Advogado Eleitoral Instagram: @felipeeleitoral
A moral tem critérios estéticos. Essa é uma verdade desconfortável que tendemos a ignorar, preferindo acreditar que nossos julgamentos sobre o “certo” e o “errado” são frutos de pura racionalidade. Não são.
Na Grécia Antiga, o conceito de Kalokagathia unia o belo (kalos) ao bom (agathos). Para eles, a virtude tinha uma simetria, uma harmonia visual; o vício, por sua vez, era disforme, feio. Ludwig Wittgenstein, séculos depois, sintetizou essa intuição no Tractatus: “Ética e estética são um só”. O problema é que, na era da pós-verdade, essa fusão tornou-se a arma mais letal da política.
Nietzsche sugeriu que a vida deveria ser justificada como um fenômeno estético. A política moderna levou isso ao pé da letra, mas de forma perversa. O jogo do poder deixou de ser sobre força bruta ou gestão; tornou-se, essencialmente, uma disputa de diretores de arte.
A mecânica é simples e brutal, como percebemos ao observar o cenário atual: transforme alguém em “monstro” e ninguém perguntará o contexto. Vista alguém de “virtude” e ninguém questionará suas intenções.
Este é o cerne da polarização brasileira. Não estamos diante de um debate entre esquerda e direita, mas de uma guerra de narrativas estéticas que seguem, rigorosamente, a lógica de Carl Schmitt sobre a distinção “Amigo-Inimigo”. Para Schmitt, a política exige um inimigo existencial. E como se cria esse inimigo? Pela estética.
Do lado do bolsonarismo, opera-se a estética da “Ordem contra a Podridão”. O adversário é pintado com as cores do comunismo, da destruição da família e da corrupção moral. Uma vez que o outro é esse “monstro”, o contexto desaparece. Não se dialoga com a podridão; elimina-se. A estética do patriotismo serve, então, como um manto de virtude que imuniza seus líderes: se eles lutam contra o monstro, seus excessos são perdoados como “necessidades de guerra”.
Do lado do petismo, opera-se a estética da “Civilização contra a Barbárie”. O adversário é o “fascista”, o “genocida”, a encarnação do ódio. Sob o manto da “Justiça Social” e do “Amor”, cria-se o Efeito Halo: a intenção virtuosa absolve a ineficiência ou o desvio ético. Se a causa é bela, os meios tornam-se irrelevantes.
O resultado dessa estetização da moral é o silêncio do debate real. Como diz a máxima silenciosa do poder: quem entende isso não grita, não se explica, não tenta convencer. Quem grita é quem está desesperado para impor sua estética. Quem detém o poder real apenas escreve o roteiro onde a sociedade, hipnotizada, aplaude a destruição do “outro”.
Para nós, operadores do Direito Eleitoral, o desafio para 2026 é existencial. O Direito foi construído sobre o Logos (a razão, a prova, o fato). A política atual opera no Mythos (a lenda, a emoção, a imagem).
Quando o Judiciário tenta arbitrar essa guerra com as ferramentas da lei, ele corre o risco de cair na armadilha: ao tentar punir o “monstro” da vez (seja a desinformação ou o abuso), pode acabar validando a narrativa de perseguição que o próprio monstro deseja.
O perigo final não é a vitória de um lado, mas a derrota da capacidade de julgamento. Quando aceitamos que a estética define a moral, abrimos mão da justiça. Afinal, monstros não têm direitos, e santos não cometem crimes. E em um país dividido entre monstros e santos, não sobra espaço para a democracia, que é, por definição, o regime dos humanos falhos.
Sobre o autor: Felipe Sant’Anna é advogado especialista em Direito Eleitoral (OAB/ES 28.780) atuando na consultoria preventiva e assessoria estratégica para candidatos e detentores de mandato. Com histórico de vitórias em campanhas majoritárias capixabas, une a combatividade nos tribunais à forte produção técnica. É autor de obras focadas em viabilizar projetos políticos com segurança jurídica, destacando-se o “Minimanual da Pré-campanha Eleitoral” (2020 e 2024) e o “Manual de Condutas Vedadas – Eleições 2026”. Licenciado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo.



