Por Jéssica Monteiro Lima
@ psicologa_jessicamonteirolima
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Ela abriu o computador para começar o dia de trabalho, mas antes mesmo de responder o primeiro e-mail, já tinha organizado a rotina da casa, pensado na logística da semana e cuidado de tudo o que o filho precisava.
Enquanto lia as demandas do trabalho, uma pergunta silenciosa aparecia: como dar conta de tudo?
O tema de maternidade e carreira, renderá com toda a certeza muitas matérias por aqui. Ao refletir sobre o que eu gostaria de trazer hoje para leitura de vocês, me vieram muitas ideias de reflexões importantes como: a decisão do melhor momento para escolher ter filhos, o dilema de priorizar a carreira, os medos e preocupações da gestante que sente insegurança com a proximidade do parto e o início da licença a maternidade, o momento de retorno da licença a maternidade em que a mulher irá experienciar pela primeira vez horas longe do seu bebê, a escolha de viver a maternidade e abrir mão da profissão, a busca pelo retorno ao mercado de trabalho e também a autocobrança na busca de dar conta de tudo.
Eu escolhi falar deste último tópico, a conciliação entre maternidade e carreira que é um dos maiores desafios vividos por muitas mulheres hoje. Não apenas pela quantidade de tarefas, mas pelas expectativas internas e externas de conseguir desempenhar todos os papéis com perfeição.
Na prática clínica ouço relatos sobre a sensação constante de estar em falta: quando estão trabalhando, sentem que poderiam estar mais presentes com os filhos e quando estão com os filhos, pensam nas responsabilidades profissionais. Essa experiência pode gerar sobrecarga emocional, sentimento de culpa e exaustão física e mental.
No Brasil dados do IBGE indicamk que mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas demandas domésticas e de cuidado, mesmo quando também estão inseridas no mercado de trabalho, o que contribui para uma maior sobrecarga mental.
Sentir-se cansada, dividida ou sobrecarregada não significa falta de capacidade. Significa que essa mulher está lidando com múltiplas exigências ao mesmo tempo, tanto em relação ao que esperam dela na sociedade quanto a próprias cobranças dela com ela mesma. O que eu costumo dizer as minhas pacientes na sessão, é que elas não precisam dar conta de tudo sozinhas, não precisam ser a mulher e mãe maravilha.
Dividir responsabilidades, construir acordos e refletir sobre expectativas possíveis de serem alcançadas pode fazer diferença na forma como essa experiência é vivida, e neste contexto a comunicação com o parceiro é essencial. Pequenos ajustes na rotina, conversas mais abertas podem ser um caminho para a busca do equilíbrio e diminuição da sobrecarga. Aceitar e pedir ajuda, a rede de apoio também pode ser uma opção que contribua neste processo.
Eu não poderia deixar de trazer nesta reflexão a influência das redes sociais, muitas mulheres buscam essa perfeição quando se comparam com outras mães. Ao abrir o celular, é comum se deparar com imagens de rotinas organizadas, produtividade, momentos de qualidade com os filhos e conquistas profissionais acontecendo ao mesmo tempo. Mas o que vemos ali são recortes, partes específicas da vida de alguém, escolhidas para serem compartilhadas. O que não aparece são os bastidores: o cansaço, as dúvidas, os dias difíceis e as tentativas de dar conta de tudo.
Quando essa comparação acontece de forma constante, pode surgir a sensação de que você sempre está ficando para trás ou fazendo menos do que deveria. Comparar a rotina completa da própria vida com os melhores momentos da vida de outra pessoa pode ser uma fonte silenciosa de sofrimento.
As redes sociais também podem ser espaços de troca, inspiração e conexão. Mas é importante lembrar que elas não mostram a experiência completa e sim apenas partes dela, a parte que foi escolhida para ser compartilhada. Olhar para a própria realidade com mais gentileza, reconhecendo limites e possibilidades, pode ser um caminho para reduzir a pressão que muitas vezes é alimentada por essas comparações. A vida real não acontece em recortes, se você não está conseguindo lidar com essa sobrecarga ou conhece alguém que precisa de ajuda, a psicoterapia pode ser importante para organizar pensamentos, sentimentos e refletir sobre estratégias de enfrentamento.
Conciliar maternidade e carreira pode ser um caminho possível quando o cuidado com a saúde mental da mulher também faz parte dessa construção.



