Por Dra. Kamila Gimenes
@dra.kamilagimenes
A prática regular de exercício físico é amplamente reconhecida como uma das principais estratégias para promoção da saúde cardiovascular. Seus benefícios incluem melhora da capacidade funcional, controle da pressão arterial, otimização do perfil glicêmico e redução de eventos cardiovasculares. No entanto, quando se trata de pacientes com lipoproteína(a), ou Lp(a), elevada, é necessário um olhar mais criterioso e individualizado, especialmente no que diz respeito à avaliação vascular prévia à prescrição de atividades físicas mais intensas.
A Lp(a) é uma lipoproteína geneticamente determinada, com forte associação ao aumento do risco cardiovascular independente dos demais fatores clássicos, como colesterol LDL, hipertensão ou diabetes. Diferentemente de outros marcadores, seus níveis não são significativamente modificados por intervenções tradicionais de estilo de vida, incluindo dieta e exercício físico. Ainda assim, sua presença elevada representa um fator de risco importante para aterosclerose, estenoses arteriais e eventos como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Diante desse cenário, o exercício físico permanece sendo uma ferramenta terapêutica fundamental, porém deve ser introduzido com cautela em indivíduos com Lp(a) elevada, sobretudo naqueles com outros fatores de risco associados ou sintomas sugestivos de doença cardiovascular. A avaliação vascular prévia tem como objetivo identificar possíveis alterações subclínicas, como placas ateroscleróticas, rigidez arterial ou comprometimento do fluxo sanguíneo, que poderiam aumentar o risco durante o esforço físico.
Exames como ultrassonografia de carótidas, avaliação do escore de cálcio coronariano, testes ergométricos e, em alguns casos, exames mais avançados de imagem, podem fornecer informações valiosas sobre o estado do sistema vascular. Esses dados permitem ao profissional de saúde estratificar o risco do paciente e orientar de forma mais segura o tipo, intensidade e progressão do exercício físico.
É importante destacar que a ausência de sintomas não exclui a presença de doença vascular significativa, especialmente em pacientes com Lp(a) elevada, dado o caráter silencioso da aterosclerose em fases iniciais. Por isso, a abordagem preventiva ganha ainda mais relevância, evitando que o primeiro sinal clínico seja um evento agudo.
Uma vez realizada a avaliação adequada, o exercício físico pode e deve ser incorporado de forma progressiva. Modalidades aeróbicas de intensidade moderada, como caminhada, ciclismo e natação, costumam ser seguras e eficazes na maioria dos casos, contribuindo para melhora da função endotelial e redução do risco global. O treinamento resistido também pode ser incluído, desde que respeitados os limites individuais e com adequada supervisão.
Outro ponto fundamental é a individualização. Pacientes com Lp(a) elevada não são todos iguais: o risco cardiovascular global depende da interação entre fatores genéticos, estilo de vida, histórico familiar e presença de comorbidades. Dessa forma, protocolos padronizados podem ser insuficientes ou até inadequados. A avaliação médica detalhada, associada à análise vascular, permite uma prescrição mais precisa e segura.
Além disso, a educação do paciente desempenha papel central. Compreender o significado da Lp(a) elevada e os motivos pelos quais a avaliação vascular é necessária aumenta a adesão ao acompanhamento e às orientações propostas. Muitas vezes, indivíduos ativos e aparentemente saudáveis subestimam seu risco, o que pode levar à prática de exercícios de alta intensidade sem a devida segurança.
Em síntese, o exercício físico continua sendo um dos pilares da prevenção cardiovascular, inclusive em pacientes com Lp(a) elevada. No entanto, nesses casos, ele deve ser encarado como parte de uma estratégia mais ampla, que inclui avaliação vascular, acompanhamento médico e individualização da conduta. Essa abordagem integrada não apenas maximiza os benefícios do exercício, como também reduz significativamente os riscos associados.
Portanto, antes de iniciar ou intensificar um programa de exercícios, especialmente em níveis mais elevados de esforço, pacientes com Lp(a) elevada devem ser orientados a realizar uma avaliação vascular completa. Essa conduta não representa uma barreira, mas sim uma medida inteligente de proteção, permitindo que o exercício cumpra seu papel de promover saúde — e não de expor o indivíduo a riscos evitáveis.
Kamila Gimenes é médica graduada pela Universidade de Caxias do Sul, com pós-graduação em Nutrologia pela ABRAN e em Doenças do Envelhecimento e Longevidade Saudável. Ao longo de sua trajetória, aprofundou-se em bioquímica e metabolismo, sempre com foco em compreender o corpo humano além do óbvio. Acredita que o verdadeiro cuidado começa quando o paciente deixa de ser espectador e assume o protagonismo da própria saúde.
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