Um olhar da Medicina Veterinária Sistêmica sobre a Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina, os vínculos e os aprendizados que surgem quando a memória enfraquece
Por *Carla Perin
@CACAPERIN
Durante muitos anos, ele conheceu cada canto da casa, sabia a hora da comida, reconhecia o som dos passos de seus tutores e percebia a chegada da família antes mesmo que a porta se abrisse, acompanhou mudanças, Presenciou alegrias, permaneceu nos momentos difíceis, talvez tenha visto os filhos crescerem, talvez tenha oferecido companhia quando alguém se sentia sozinho, talvez tenha sido presença quando nenhuma palavra parecia suficiente, até que, com o passar do tempo, algo começou a mudar, o cão que conhecia todos os caminhos passou a se perder dentro da própria casa, começou a caminhar sem direção, passou a trocar o dia pela noite, em alguns momentos, parecia não reconhecer lugares familiares, em outros, vocalizava, permanecia inquieto ou precisava ser conduzido de volta, e, diante dessas mudanças, a família começa a perguntar:
“O que está acontecendo com ele?”
A Medicina Veterinária busca compreender a doença. a visão sistêmica acrescenta outra pergunta:
“O que essa experiência está mobilizando em nós?”
A Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina, conhecida popularmente como “Alzheimer canino” ou “síndrome do cão velho”, é uma condição neurodegenerativa relacionada ao envelhecimento cerebral, ela pode provocar alterações na memória, na orientação, no ciclo do sono, na interação social, nos hábitos de higiene e comportamento. Portanto, a visão sistêmica não deve afirmar que o tutor causou a doença, que o animal está adoecendo para carregar um conflito familiar ou que existe uma emoção específica por trás do diagnóstico, a doença precisa ser investigada, acompanhada e tratada pela Medicina Veterinária, mas toda doença vivida dentro de uma família produz movimentos, ela modifica rotinas, e pode trazer à consciência sentimentos que antes permaneciam silenciosos, é nesse espaço que a Medicina Veterinária Sistêmica amplia o olhar, durante muitos anos, o cão pode ter ocupado um lugar importante na vida emocional da família. talvez tenha acompanhado o tutor durante um período de solidão, talvez tenha permanecido ao seu lado em momentos de luto, separações ou mudanças, talvez tenha sido aquele que parecia perceber quando alguém estava triste. mas agora os lugares se transformam. Aquele que acompanhava passa a precisar ser acompanhado. Aquele que oferecia segurança passa a necessitar de proteção. Aquele que encontrava o caminho passa a precisar que alguém o conduza. E talvez a primeira reflexão sistêmica esteja justamente em deixar de esperar que o cão continue sendo aquele companheiro forte, ativo e disponível de antes? Consegue reconhecer que agora é o animal quem precisa receber aquilo que ofereceu durante tantos anos? A doença pode convidar a família a experimentar uma nova forma de amor. Um amor que não depende do que o outro consegue oferecer. Conviver com um cão com disfunção cognitiva também pode confrontar o tutor com algo difícil: Nem tudo pode ser controlado. Mesmo oferecendo medicamentos, alimentação adequada, estímulos, acompanhamento veterinário e muito amor, algumas mudanças podem continuar acontecendo. Para pessoas que passaram grande parte da vida tentando cuidar de todos, prever problemas ou impedir perdas, essa experiência pode ser especialmente dolorosa. O tutor pode se perguntar: “Será que estou fazendo o suficiente? ” Será que deixei de perceber alguma coisa? ” Será que poderia ter evitado? “Mas talvez a experiência traga uma compreensão importante: Existem situações em que o amor não consegue impedir a doença. Mas consegue permanecer diante dela. Existe algo profundamente simbólico na imagem de um cão que começa a perder suas referências. Ele pode caminhar pela casa sem saber para onde está indo. Pode permanecer diante de uma parede. Pode não encontrar a porta. Pode parecer preso em um espaço conhecido. E, diante dessa cena, algumas perguntas podem surgir:
O que essa experiência pode estar convidando o tutor a aprender?
Talvez não exista uma resposta única. Para alguns, pode ser um aprendizado sobre paciência. Para outros, sobre aceitação. Pode ser um convite para diminuir o ritmo. Para cuidar sem controlar. Para receber ajuda. Para reconhecer os próprios limites. Para compreender que o valor de um ser não depende daquilo que ele consegue oferecer. E, talvez, para aprender que amar alguém também é permanecer quando esse alguém já não consegue ser como antes. A doença não precisa ser vista como castigo. Nem como missão. Nem como consequência de uma falha do tutor
“Talvez a doença não tenha vindo para ensinar. Mas, ao atravessá-la, podemos aprender que o amor mais profundo não é aquele que impede o outro de se perder — é aquele que permanece ao seu lado e o ajuda a encontrar segurança, mesmo quando a memória já não encontra o caminho.”
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



