Por Carla Perin
@cacaperin
Recentemente, uma situação atendida na clínica me fez pensar sobre algo aparentemente simples: a importância da guia durante os passeios. Duas famílias passeavam com seus cães. Um deles estava preso à guia. O outro, solto. Em determinado momento, houve uma aproximação e um dos cães mordeu o outro. Em poucos segundos, aquilo que deveria ser apenas um passeio transformou-se em ferimento, atendimento veterinário, preocupação, gastos e um enorme transtorno para as duas famílias. E então aparece uma frase que ouvimos com frequência: “Mas ele é bonzinho. “Pode ser. O problema é que utilizar a guia não significa considerar seu cão agressivo. Um barulho inesperado, outro cachorro, uma bicicleta, uma criança correndo, medo, dor, territorialidade ou simplesmente uma aproximação que um dos animais não desejava podem mudar uma interação em segundos. Além disso, mesmo um cão extremamente sociável pode se aproximar de outro que não queira contato. E aqui existe algo fundamental: quando seu cachorro está solto e encontra um cão preso à guia, o outro tutor tem muito menos possibilidades de afastar seu próprio animal daquela interação. Por isso, guia também é respeito pelo espaço do outro. Ela permite interromper uma aproximação, aumentar a distância e proteger não apenas seu animal, mas também os animais e as pessoas que dividem aquele ambiente. Talvez algo bastante simples. Liberdade não existe sem responsabilidade. Quando saímos de casa com um animal, deixamos temporariamente o espaço privado da nossa família e entramos em um espaço compartilhado. Ali existem outros cães. Outras pessoas. Outros medos. Outras histórias. Outros limites. Na visão sistêmica, nossas ações não acontecem isoladamente. Aquilo que um membro faz pode produzir consequências para todo o sistema ao redor. Foi exatamente o que aconteceu naquele passeio. Em poucos segundos, dois cães e duas famílias passaram a fazer parte da mesma situação. Um animal sentiu dor. Uma família ficou preocupada. A outra precisou lidar com as consequências do comportamento de seu cão. E todos foram afetados. Talvez seja por isso que colocar a guia antes de sair de casa pareça um gesto tão pequeno, mas represente algo muito maior. Permitir que ele caminhe, explore, cheire e aproveite o passeio — mas dentro de limites que também protejam quem cruza o caminho de vocês. Porque viver em sociedade, para nós e para nossos animais, exige uma compreensão essencial: o espaço termina onde começa o direito do outro de também se sentir seguro. E algumas vezes, entre um passeio tranquilo e uma situação que muda o dia de duas famílias, existe apenas uma guia.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



