Por Paula Silveira
Autores: Fabrizio Martins Tavoni
é Doutorando em Educação na Unicamp,
Mestre em Ciência Política pela UFSCar
e naturista.
@fbrn_oficial
Não me tornei naturista por uma adesão circunstancial a um estilo de vida, nem por uma busca ingênua libertária. O naturismo, para mim, é antes uma forma de interrogar o mundo e de me situar nele a partir do corpo.

A primeira vez. Pinho, 2023. Acervo pessoal.
Vivemos em uma sociedade que não apenas regula comportamentos, mas organiza profundamente a maneira como o corpo pode aparecer. O corpo não é livre: ele é vestido, codificado, mensurado, moralizado e, sobretudo, mediado. Aquilo que parece natural é, frequentemente, o resultado de uma longa sedimentação de normas. Nesse contexto, o naturismo não é simplesmente a ausência de roupa; é a suspensão, ainda que parcial e provisória, dessas mediações.
Mas essa suspensão não elimina o social. Ao contrário, ela o torna mais visível. Estar nu, em um contexto coletivo, não dissolve o olhar do outro, nem as tensões que o atravessam. O que ocorre é uma mudança de regime: o corpo deixa de ser protegido por camadas simbólicas evidentes e passa a se apresentar em uma forma que expõe, de maneira mais direta, a vulnerabilidade constitutiva da experiência humana.
E é precisamente nesse ponto que o naturismo adquire, para mim, um sentido mais profundo.
Minha trajetória não é indiferente a isso. A experiência que tenho com a depressão não se limita a estados de humor; ela frequentemente implica um distanciamento do próprio corpo, uma espécie de apagamento da presença sensível no mundo. O corpo torna-se pesado, opaco, por vezes estranho. Reconectar-se com ele não é trivial, é algo muito trabalhoso.

Depois o caminho fica simples. Tambaba, 2025. Acervo pessoal.
O naturismo, nesse sentido, opera como uma prática concreta de reconexão. Não como cura, nem como solução mágica, mas como experiência: sentir o ambiente diretamente sobre a pele, perceber o corpo em sua materialidade, reinscrever-se no mundo a partir de uma presença menos mediada. Trata-se de um retorno, ainda que momentâneo, à dimensão sensível da existência. É algo transcendental.

Em algum momento o corpo deixa de resistir. Acervo pessoal.
Essa dimensão se articula, também, com minha experiência neurodivergente. A relação com o mundo, nesse caso, não é apenas simbólica, mas intensamente sensorial. As roupas, que para muitos são neutras, podem se tornar ruído, excesso, interferência. Retirá-las não é apenas um gesto cultural, pode ser uma forma de reorganizar a própria experiência perceptiva, tornando-a mais direta, menos saturada.
Mas reduzir o naturismo a uma resposta funcional seria empobrecê-lo. Há, nele, uma dimensão ética.
Ser naturista, para mim, implica uma recusa, ainda que parcial, das formas mais automatizadas de apresentação de si. Implica tensionar a necessidade constante de mediação, de adequação a códigos muitas vezes naturalizados. Não se trata de negar o social, mas de estabelecer com ele uma relação crítica. O naturismo não elimina normas; ele as expõe.

O Naturismo vira modo de vida. Foto: Gildo Mazza.
Por isso, não o entendo como fuga, mas como enfrentamento. Não como retorno a uma suposta natureza original, mas como construção de um espaço onde outras formas de presença se tornam possíveis.
Nesse espaço, a vulnerabilidade não é um efeito colateral a ser evitado, mas uma condição a ser elaborada. Estar nu é, inevitavelmente, estar exposto. Mas, quando essa exposição é escolhida e compartilhada em um contexto que a reconhece, ela pode deixar de ser apenas fragilidade e se tornar também uma forma de elaboração de si.
Talvez seja esse o ponto central: o naturismo, para mim, não é apenas sobre o corpo, mas sobre a possibilidade de habitá-lo de outra maneira.
Não completamente livre, não fora da sociedade, mas em uma posição em que suas regras deixam de ser invisíveis e passam, finalmente, a poder ser pensadas.

Nem sempre é possível ver, mas é possível sentir. Foto: Pamela Facco.
*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020.É naturista desde 1997 e é integrante da CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, na Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.
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