Por Jéssica Monteiro Lima
@psicologa_jessicamonteirolima
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Ele sai para trabalhar.
Ele vai para a academia.
A rotina dele, de alguma forma, continua.
E, para ela, tudo mudou.
Os dias passam entre mamadas, trocas, choro, tentativas de fazer o bebê dormir. O tempo parece se reorganizar completamente em função de outra vida. E, em meio a essa nova rotina, um pensamento pode surgir, às vezes de forma silenciosa, às vezes com mais intensidade: “Eu nunca mais vou ter a minha vida de volta.”
Esse pensamento pode vir acompanhado de cansaço, sobrecarga e uma sensação de perda difícil de explicar. Como se a mulher que existia antes tivesse ficado distante ou até mesmo deixado de existir.
O pós-parto é um período de grandes transformações. Não apenas no corpo, mas na identidade, na rotina, nas relações e na forma de se perceber no mundo. É comum que, nesse momento, a mulher se veja completamente imersa nos cuidados com o bebê, com pouco espaço ou quase nenhum para si mesma.
E é justamente aí que surgem sentimentos como frustração, culpa, tristeza e até desesperança. A ideia de que essa fase não vai passar, de que não haverá mais tempo para cuidar de si, para retomar interesses ou simplesmente existir para além da maternidade.
Se você está passando por algo parecido, acho importante te dizer que: sentir isso não faz de você mulher uma mãe ruim.
Não significa falta de amor pelo seu bebê.
Significa que você está atravessando uma das mudanças mais intensas da vida.
A maternidade, especialmente nos primeiros meses, pode ser vivida como um período de grande dedicação e, muitas vezes, de renúncia temporária. O bebê demanda presença, atenção constante e disponibilidade emocional. E isso pode gerar a sensação de que não há espaço para mais nada.
Além disso, quando a rotina do parceiro parece menos impactada, esses sentimentos podem se intensificar. A comparação, ainda que silenciosa, pode trazer a percepção de injustiça, solidão ou até mesmo incompreensão.
Mas é importante lembrar: essa fase, por mais intensa que seja, é transitória.
Ainda que, no meio do cansaço e da sobrecarga, pareça que ela nunca vai acabar.
Com o tempo, a rotina se reorganiza, o bebê cresce, novos espaços começam a surgir e, aos poucos, a mulher pode ir retomando partes de si mesma. Isso não acontece de forma imediata, nem igual para todas, mas acontece.
Enquanto isso, pode ser importante olhar com gentileza para esse momento. Ajustar expectativas, reconhecer limites e, sempre que possível, construir pequenas pausas ainda que breves, que permitam algum respiro no meio da rotina.
O acompanhamento psicológico pode ser um espaço importante nesse período. Um lugar onde se pode falar sobre o que sente, sem medo de julgamento, e elaborar essa sensação de perda, reconstruindo aos poucos a identidade para além da maternidade.
Porque, embora a vida mude, e mude muito, isso não significa que ela deixa de existir.
Significa que ela está sendo transformada.
E, mesmo que agora pareça difícil de enxergar, ainda existe uma mulher ali.
Com desejos, interesses e possibilidades que podem, aos poucos, voltar a ocupar espaço.
Essa fase não define tudo o que virá depois.
Ela faz parte da história, mas não é a história inteira.
Espero que essa matéria te acolha com carinho.
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Sobre a autora
Jéssica Samanta Monteiro Miranda Lima é Psicóloga Perinatal, com atuação voltada à saúde mental da mulher. Acompanha mulheres em diferentes fases da vida, desde a jornada da fertilidade até os desafios emocionais da gestação, parto, pós-parto, e busca por uma maternidade mais leve oferecendo escuta sensível e embasamento técnico e científico.
Formação acadêmica
Bacharel em Psicologia – Universidade do Grande ABC
MBA em Gestão estratégica do Capital Humano – FMU
Pós-graduação Psicopedagogia – Universidade Metodista
Pós-graduação Aperfeiçoamento em Psicologia Perinatal e da Parentalidade – Instituto MaterOnline



