Por Bia Rossatti
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A partir da leitura de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, o arquétipo materno revela que amar também é ensinar a atravessar a floresta.
Quando pensamos na figura da mãe, quase sempre a primeira imagem que surge é a do acolhimento: o colo, a proteção, o cuidado, a presença que conforta. Mas, no campo simbólico e arquetípico, a função materna vai além desse lugar de abrigo. A mãe, em sua dimensão mais profunda, não apenas protege a vida — ela prepara a vida para seguir. E é justamente essa compreensão que emerge com força no conto de Vasalisa, recontado por Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos.
No conto, antes de morrer, a mãe de Vasalisa entrega à filha uma pequena boneca e orienta que ela a mantenha em segredo, a alimente e a consulte sempre que estiver perdida ou precisar de ajuda. Esse gesto, aparentemente simples, concentra uma das imagens mais poderosas da maternidade arquetípica: a transmissão de um recurso interno que continuará guiando a filha mesmo na ausência da mãe concreta. A bênção materna, nesse sentido, não se reduz à proteção imediata; ela se transforma em direção interior, em presença psíquica, em força silenciosa capaz de sustentar a travessia da vida.
É por isso que a função arquetípica da mãe não pode ser entendida apenas como cuidado afetivo. Ela é também iniciação. É a mãe que ama o suficiente para nutrir, mas também para preparar. A mãe que não impede a entrada na floresta, mas deixa na filha aquilo que será necessário para atravessá-la. Em vez de criar dependência, ela fortalece o eixo. Em vez de aprisionar pelo medo, ela transmite discernimento, escuta e confiança.
Na leitura simbólica do conto, a boneca representa exatamente essa dimensão interior da sabedoria. Em análise inspirada na obra da autora, ela aparece como uma espécie de “pequena alma”, uma presença íntima ligada ao saber profundo, à percepção instintiva e à voz interior que orienta a filha em momentos decisivos. No entanto, está benção na vida é estendida a todos os filhos, independente de seu gênero.
Mais do que um objeto mágico, ela simboliza a intuição alimentada, cultivada e ouvida.
Essa imagem é especialmente significativa porque desloca a ideia de maternidade de um papel exclusivamente externo para uma realidade psíquica mais ampla. Nem sempre a mãe arquetípica coincide com a mãe biológica ideal. Em muitas trajetórias, essa função pode ser exercida por uma avó, uma tia, uma professora, uma terapeuta, uma mestra ou qualquer mulher que, em algum momento, ajude alguém a reencontrar sua própria voz interior. E, em outros casos, essa função precisa ser reconstruída dentro de si, sobretudo quando o materno vivido foi frágil, ausente ou ferido.
Ao refletir sobre o conto, algumas leituras destacam uma passagem importante: chega um momento em que a “mãe excessivamente protetora” já não pode ser o centro orientador da vida instintiva futura. A jornada de amadurecimento exige que a personagem desenvolva sua própria consciência sobre o perigo, o discernimento e a sobrevivência psíquica. Ou seja, a travessia pede a morte simbólica de uma dependência infantil para o nascimento de um(a) filho(a) capaz de confiar na própria percepção.
É justamente aí que a grandeza da mãe arquetípica se revela. Seu amor não busca manter o outro pequeno para continuar sendo necessário. Seu amor não sufoca, não infantiliza, não se perpetua pelo controle. Ao contrário: sua força está em deixar sementes de autonomia, coragem e orientação interna. A mãe arquetípica é aquela que, mesmo na ausência, continua presente como consciência viva. Ela se torna memória que protege, sabedoria que avisa, intuição que alerta, ternura que fortalece.
No conto de Vasalisa, a menina só consegue seguir adiante porque foi iniciada nesse vínculo com sua própria escuta interior. A boneca não substitui sua jornada, mas a ajuda a não se perder de si mesma. Essa é uma imagem preciosa para pensar os vínculos maternos na vida real: mães que não vivem no lugar dos filhos, mas os ajudam a desenvolver recursos para enfrentar o mundo com mais verdade e inteireza.
Talvez por isso esse conto toque algo tão profundo em tantas mulheres, em especial as que já são mães. Porque ele fala da passagem entre a menina que espera ser conduzida e a mulher que aprende a discernir por si. E nessa passagem, a imagem da mãe também se transforma: sai do lado de fora e passa a habitar dentro. O cuidado recebido, quando amadurecido, torna-se presença interior. A proteção se converte em consciência. O amor, em raiz.
Falar da função arquetípica da mãe é, portanto, falar de um amor que não se mede apenas pelo quanto acolhe, mas também pelo quanto prepara. É honrar a maternidade não só como abrigo, mas como bênção para a autonomia. Não só como ternura, mas como transmissão de alma.
Em tempos em que tantas relações oscilam entre a ausência e o excesso, essa reflexão nos convida a perguntar: o que o materno deixou em nós? Medo ou confiança? Dependência ou eixo? Silenciamento ou escuta interior? E mais do que isso: como podemos cultivar em nós essa boa mãe interna, capaz de acolher, orientar e fortalecer a própria vida?
Talvez essa seja uma das maiores heranças do arquétipo materno: ensinar que o amor mais profundo não é o que impede a travessia, mas o que acende uma chama para que possamos atravessar.
Bia Rossatti é terapeuta familiar, autora e pesquisadora de temas ligados a relacionamentos interpessoais, ao feminino e masculino saudáveis, aos arquétipos, ao desenvolvimento humano e à construção de sentido por meio da palavra. Sua atuação é marcada pelo compromisso com uma comunicação autêntica, acessível e transformadora, capaz de tocar questões contemporâneas com delicadeza, consistência e densidade.




Verdade mesmo….. a boneca que dada à filha funciona como um amuleto, carregado da força necessária de “lembrar” a filha que ela é capaz.