*Por: Dra. Camila Conrad
Por muito tempo, viver de aluguel foi quase um símbolo de tranquilidade. Você assinava o contrato, o dinheiro caía na conta todo mês e pronto: o patrimônio parecia trabalhar sozinho, sem fazer barulho. Era simples, silencioso, passivo. E, convenhamos, bastante confortável.
Só que essa lógica acabou e, boa parte dos proprietários ainda não se deu conta disso. A reforma tributária mudou o jogo. E não estamos falando de um mero ajuste, daqueles detalhes que só interessam ao contador… A mudança é estrutural, e mexe diretamente com quem sempre tratou o aluguel como uma renda “de canto”.
A partir de agora, quem aluga imóveis como pessoa física passa a ser olhado com outras lentes pelo Fisco, as lentes de quem exerce uma “atividade econômica organizada”. Assim, dois números importam:
Se no ano passado você recebeu mais de R$ 240 mil de aluguel, com mais de três imóveis alugados;
Ou se neste ano ultrapassar R$ 288 mil nas mesmas condições.
Atingiu qualquer um desses limites? Então você deixou de ser “só um proprietário”. Passou a ser, formalmente, contribuinte de IBS e CBS (os novos tributos que substituem boa parte do que conhecíamos antes).
Esse é o ponto que poucos estão enxergando com clareza. A nova regra não te obriga a virar empresário do dia para a noite, no sentido tradicional. Mas exige que você se organize de verdade. Existem dois caminhos possíveis:
Estruturar a atividade dentro de uma empresa, organizando o patrimônio em uma empresa;
Se inscrever como contribuinte pessoa física, assumindo formalmente que aquilo é uma operação econômica.
Nos dois casos, há uma mudança silenciosa e, profunda. O aluguel sai do território do “fluxo informal tolerado” e entra no território da atividade que necessita de estratégia.
E quando não há estratégia, sobra é risco. Risco de autuação. Risco de desenquadramento. Risco de pagar mais imposto do que deveria, ou de pagar de forma desorganizada, deixando dinheiro na mesa sem nem perceber. Mas existe um risco ainda mais invisível, e talvez o mais perigoso de todos: o de continuar tratando um patrimônio relevante com lógica amadora.
Porque, sejamos sinceros: quem tem vários imóveis alugados já não está em um jogo simples. Existe gestão, fluxo de caixa, impacto tributário. Existe sucessão. E existe, atravessando tudo isso, o vínculo familiar (herança, partilha, conflitos que ninguém quer admitir que existem). Ignorar essa complexidade não congela o problema. Só adia o custo. E, quando a conta chega, costuma vir com juros.
Essa é talvez a leitura mais honesta de todo esse movimento. A reforma tributária não inventou um problema novo, ela apenas está escancarando quem já estava operando sem estrutura há anos. E aqui entra um ponto que quase ninguém comenta: organizar isso tudo não é apenas uma decisão fiscal. É uma decisão de maturidade patrimonial.
É entender que patrimônio não é só acúmulo: é gestão consciente.
Que renda não é apenas dinheiro entrando: é responsabilidade.
E que, previsibilidade, de verdade, não nasce de um contrato de aluguel bem redigido. Nasce do planejamento patrimonial que sustenta tudo isso por trás.
No fim das contas, não é mais o caso de perguntar “será que vou ser impactado?”. Você vai. A pergunta é outra: Você vai esperar a exigência bater na sua porta ou, vai se antecipar com estratégia? Porque nesse cenário novo, improviso sai caro. E clareza deixa de ser um diferencial bonito de ter no currículo. Passa a ser, simplesmente, proteção.
Talvez esteja na hora de olhar para essa renda, aquela que sempre pareceu tão simples, com a seriedade que, no fundo, ela sempre exigiu.
*Dra. Camila Conrad
(51) 99863-5168
@camilaconradadvogada
Camila Conrad é Mestre em Direito, advogada especialista em Planejamento Patrimonial, Familiar e Sucessório, Direito Societário e Governança Corporativa. Atua há mais de uma década em consultorias para famílias empresárias e empreendedores na proteção estratégica do patrimônio e na estruturação jurídica das relações familiares e empresariais.
É também mentora de profissionais do Direito interessados em desenvolver uma advocacia patrimonial preventiva, e atua como palestrante em eventos sobre planejamento patrimonial, sucessão empresarial e contratos preventivos.



