Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
Quando a gente escuta “família”, quase sempre vem junto uma ideia de como “deveria ser”: união, carinho, apoio, risadas em volta da mesa. Mas, na vida real, família também é conflito, silêncio, excesso de expectativa, culpa, papéis que parecemos carregar desde sempre.
E aí entra a autonomia afetiva.
Hoje quero conversar com você sobre isso, aproveitando o Dia Internacional da Família, em 15 de maio, não para romantizar esse laço, mas para olhar para ele com mais verdade. Porque, gostando ou não, foi dentro da sua família que você aprendeu, pela primeira vez, o que era amor, cuidado, limite, rejeição, presença, ausência.
É em casa que muita coisa começa… e onde, muitas vezes, a gente fica preso sem perceber.
Talvez você seja “o responsável”, aquele que resolve tudo, que nunca pode fraquejar.
Talvez seja “a boazinha”, que não sabe dizer não e está sempre disponível.
Talvez seja “o problema”, que carrega sozinho o rótulo da família.
Talvez seja o que se afastou, e agora convive com um misto de alívio e culpa.
Perceba como esses papéis, criados lá atrás, continuam ecoando nos seus relacionamentos de hoje.
Quem sempre cuidou de todo mundo, tende a escolher parcerias em que continua cuidando sem ser cuidado.
Quem aprendeu que precisa agradar para ser amado, muitas vezes se cala, engole, se adapta demais.
Quem foi criticado o tempo todo, pode viver tentando provar valor, sem nunca se sentir suficiente.
Autonomia afetiva, dentro da família, começa quando você percebe isso.
Não é cortar laços, nem “cancelar” pai, mãe, irmãos. Também não é engolir tudo para manter a paz a qualquer custo. É algo mais sutil: assumir o direito de ser um pouco diferente do que esperam de você. Um pouco mais inteiro, um pouco mais verdadeiro.
Pode ser que, neste Dia da Família, você se veja indo a um almoço que não quer, rindo de piadas que não acha graça, ouvindo comentários que ferem. E, ao mesmo tempo, pensando: “Mas é família, né? Tenho que aguentar”.
Eu quero te propor outra pergunta:
Você “tem que aguentar” ou sente que não tem permissão interna para colocar limites?
Autonomia afetiva é quando você começa a construir essa permissão.
Permissão para dizer “não vou falar sobre isso agora”.
Permissão para sair um pouco mais cedo.
Permissão para não se explicar tanto.
Permissão, até, para se afastar um pouco se o contato estiver machucando demais.
Você pode escolher estar presente sem se abandonar. Isso é muito diferente de se isolar do mundo.
Em vez de pensar “não devo sentir isso, é feio”, talvez caiba reconhecer: “Eu amo essas pessoas, mas há coisas aqui que me doem”.
Amor e incômodo podem coexistir. Amor e limite também.
Talvez, na sua família, nunca se falou sobre emoções de forma aberta. Tudo vira piada, crítica ou silêncio. Autonomia afetiva, nesse contexto, pode ser você ser o primeiro a fazer diferente: nomear o que sente, recusar certas dinâmicas, não entrar em discussões que só se repetem.
Não é sua obrigação salvar sua família, curar gerações, resolver mágoas profundas. Sua responsabilidade é, antes de tudo, com a forma como você se trata dentro dessas relações.
Neste 15 de maio, em vez de se perguntar “Será que minha família é normal?”, eu te convido a outra reflexão:
“Como eu posso me relacionar com a minha família sem me perder de mim?”
Talvez, para você, a resposta seja estar mais perto.
Talvez seja colocar um pouco de distância.
Talvez seja só mudar a forma como participa das conversas, dos encontros, dos velhos roteiros.
Família não é um lugar onde você precisa caber a qualquer custo. É um cenário importante da sua história, mas não é o único. Autonomia afetiva é quando você começa a se ver não apenas como “filho, filha, irmão, irmã”, mas como uma pessoa inteira, com desejos, limites, escolhas próprias.
Porque, no fim, a família com quem você vai conviver 24 horas por dia, até o último dia de vida, é você. E essa relação merece, pelo menos, o mesmo cuidado que você tanto tenta oferecer aos outros.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



