Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
Às vezes sabemos exatamente o que precisa mudar.
Sabemos que procrastinamos, evitamos conversas difíceis, repetimos padrões e insistimos em comportamentos que, no fundo, nos machucam. Ainda assim, mesmo conscientes, continuamos fazendo as mesmas coisas.
Isso acontece porque compreender um comportamento não significa, necessariamente, conseguir mudá-lo.
Na psicologia, entender o problema é apenas parte do processo. A mudança costuma acontecer quando começamos a perceber não apenas os prejuízos do comportamento atual, mas também os benefícios reais de um novo caminho. Quando o novo passa a fazer mais sentido emocional do que o antigo.
Um exercício muito utilizado na psicoterapia é o autorregistro.
Consiste em observar e descrever: o comportamento que se repete, o desconforto que ele causa, o que desejamos mudar, quais benefícios esperamos alcançar e quais pequenos passos podem nos aproximar dessa mudança.
Ao fazer isso, aumentamos a percepção sobre nossos padrões e fortalecemos novas associações mentais e comportamentais. A repetição consciente ajuda o cérebro a construir novos caminhos de resposta diante das situações do cotidiano.
Mas existe outro ponto importante nesse processo: a dissonância cognitiva.
Ela surge quando aquilo que fazemos entra em conflito com aquilo que valorizamos.
Um exemplo simples é quando sabemos que precisamos estudar, organizar a casa ou cuidar da saúde, mas, naquele momento, sentimos mais vontade de descansar, assistir algo ou simplesmente adiar a tarefa.
Então surge o conflito interno: uma parte busca conforto imediato, enquanto outra deseja algo maior a longo prazo.
E, muitas vezes, tentamos negar essa parte de nós. Negamos a preguiça. Negamos o medo. Negamos o prazer imediato. Negamos a procrastinação como se ela não pudesse existir.
Mas lutar contra aquilo que sentimos costuma aumentar ainda mais a tensão interna.
Talvez o caminho não seja travar uma guerra contra essa parte de nós, mas reconhecê-la.
Aceitar que existe um benefício momentâneo naquele comportamento. Aceitar que existe uma parte nossa buscando conforto, alívio, proteção ou descanso.
Quando paramos de gastar tanta energia tentando esconder ou combater aquilo que sentimos, conseguimos direcionar essa força para agir de acordo com o que realmente valorizamos.
Aceitar não significa desistir da mudança. Significa diminuir a guerra interna para caminhar com mais consciência.
Porque, no fim, mudar não depende apenas de saber.
Depende da forma como nos relacionamos com aquilo que sentimos enquanto tentamos mudar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• Beck, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.
• Hayes, Steven C.; Strosahl, Kirk D.; Wilson, Kelly G. Terapia de Aceitação e Compromisso. Porto Alegre: Artmed.
• Festinger, Leon. Teoria da Dissonância Cognitiva. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
MINI CURRÍCULO
João Costa Bezerra
Psicoterapeuta especializado em saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
Atua com TCC, DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica, ajudando pessoas a desenvolverem regulação emocional, flexibilidade e autonomia para lidar com seus desafios psicológicos.
Para mais informações: (11) 98436-1978



