Por Valquíria Gomes da Silva
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Nos últimos meses, o Brasil acompanhou com tristeza mais um caso que chocou não apenas pela violência, mas pela forma como tudo aconteceu. O tenente-coronel, Geraldo Leite Rosa Neto, tornou-se suspeito de matar sua esposa, Gisele Alves Santana. Uma história que, infelizmente, se soma a tantas outras vividas silenciosamente por mulheres dentro de relacionamentos que, no começo, pareciam perfeitos.
É justamente por isso que o tema de hoje é tão importante: muito “príncipe” se transforma em escorpião.
Quando falamos sobre violência doméstica, muitas pessoas ainda imaginam que ela começa com agressões físicas. Mas, não é assim. O relacionamento abusivo começa de forma encantadora. O homem é gentil, paciente, protetor e romântico. Faz planos com a mulher, é estável, faz promessas, transmite segurança. Essa é fala da maioria das vítimas de violência doméstica que procuram meu escritório: “ele parecia perfeito”.
A violência nunca chega anunciada. Pelo contrário, ela se instala aos poucos. Primeiro, o controle disfarçado de cuidado. Depois, o ciúme em e excesso como prova de amor. Logo, começam as críticas, o afastamento de amigos e familiares, até a manipulação emocional e o controle do salário, cartões de crédito e créditos. Quando a mulher percebe, está dependente emocionalmente e dentro de um ciclo extremamente difícil de romper.
A frase que mais escuto, como advogada atuante na defesa de mulheres vítimas de violência doméstica, é: “Dra., ele não era assim”. E pode ser que, realmente, ele não aparentasse ser dessa forma. Agressores sabem construir personagens impecáveis. Homens respeitados, provedores, religiosos, bons pais e, muitas vezes, admirados por todos a sua volta.
A violência doméstica acontece dentro de condomínios de luxuosos, em casas simples, casais religiosos, bem em relacionamentos curtos ou longos. O que explica por que as mulheres demoram para pedir ajuda. Vergonha, medo de serem desacreditadas, e a esperança de que aquele homem do início volte a existir.
Ocorre que, o ciclo da violência, muitas vezes, se intensifica.
A fala “muito príncipe se transforma em escorpião” representa essa transformação terrível que incontáveis mulheres vivem dentro de relacionamentos abusivos. Companheiros ou namorados, que no começo pareciam príncipes, mas se mostram verdadeiros controladores, agressivos, manipuladores e até violentos.
Quando a mulher decide romper o relacionamento que o agressor perde o controle sobre ela. E homens controladores não sabem lidar bem com perda de poder. Esse é motivo de tantas mulheres serem perseguidas e ameaçadas após o fim do relacionamento.
A Lei Maria da Penha reconheceu que a violência contra a mulher não é apenas física. Ela também pode ser psicológica, patrimonial, moral e emocional e, muitas mulheres chegam ao limite emocional sem nunca terem sido vítima de um empurrão.
A violência doméstica pode atravessar todas as camadas sociais e pode atingir qualquer mulher, seja qual for seu grau de instrução ou condição financeira.
Precisamos parar de romantizar sinais de controle e posse no namoro ou casamento. Ciúme excessivo não é amor e controle não é proteção.
Nenhuma mulher entra no relacionamento imaginando sair dele por situação tão triste e desafiadora, por isso, está na hora de parar de questionar o por que ela ainda saiu do relacionamento abusivo. Isso é revitimizá-la.
Que casos como esse sirvam como alerta. Fazendo-nos lembrar que, por trás de histórias “perfeitas”, pode haver mulheres vivendo relacionamentos abusivos, em silêncio, lutando diariamente para sobreviver e sonhando em um dia romper o ciclo da violência doméstica.



