Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Quando eu era criança, eu achava Corpus Christi uma data meio misteriosa. Aqueles tapetes coloridos na rua, o silêncio meio diferente do dia, as pessoas andando devagar, como se estivessem carregando algo invisível. Hoje, quando penso em autonomia afetiva, essa imagem volta com força: uma caminhada, um corpo em movimento, um caminho que se desenha aos poucos, passo a passo.
Quero te convidar a olhar para Corpus Christi não só como uma festa religiosa, mas como uma metáfora bonita da nossa independência emocional. Não importa se você é religioso ou não; o símbolo aqui é outro: um corpo que se reconhece, um caminho que se constrói, uma presença que ocupa espaço no mundo.
Pensa comigo: por muitos momentos da vida, a gente entrega o próprio coração como se fosse um tapete para o outro passar. A gente se molda, se encolhe, se adapta, com medo de perder amor, aprovação, companhia. Vai apagando os próprios contornos para caber no molde de alguém. E, no começo, parece bonito: “olha como eu me dou, como eu me sacrifico, como eu amo”. Mas, lá dentro, um incômodo começa a sussurrar: “e eu, onde fico nisso tudo?”.
Autonomia afetiva não é erguer um muro e dizer “não preciso de ninguém”. É outra coisa. É reconhecer que eu me vínculo, me apego, amo, sofro, desejo, sinto falta – mas que eu não desapareço dentro de ninguém. É compreender que eu posso dividir o pão, mas não posso entregar o meu corpo psíquico inteiro para o outro administrar. Eu posso caminhar ao lado, mas não posso deixar que o outro escolha todas as minhas direções.
Se Corpus Christi fala de um corpo oferecido, a autonomia afetiva nos convida a uma pergunta delicada: até que ponto o que eu ofereço é amor e, a partir de que ponto, já é abandono de mim? Eu me dou… ou me desfaço?
Às vezes, essa fronteira só aparece quando dói. Quando a gente percebe que vive à espera de uma mensagem, de um elogio, de um reconhecimento que não vem. Quando a nossa paz fica refém da reação de alguém. É como se a nossa alma estivesse sempre diante de um altar alheio, esperando uma migalha de bênção: “me vê?”, “me escolhe?”, “me confirma?”. E, se não vem, a gente desmorona.
Autonomia afetiva começa quando eu recolho, com carinho, essas partes de mim que eu fui deixando espalhadas por aí. Quando eu percebo que a minha dignidade não pode ficar nas mãos do humor de ninguém. Quando eu entendo que amar não é me anular, e que cuidar de mim não é egoísmo – é responsabilidade básica.
Nesse sentido, o caminho de Corpus Christi me inspira como imagem: uma procissão interna. Um movimento silencioso em que eu vou, de dentro para fora, reconhecendo cada pedaço de mim que eu tinha esquecido. Meu medo, minha vergonha, meu desejo, minha raiva, minha ternura. Tudo isso faz parte do meu corpo psíquico. Tudo isso é “eu”. E, quando eu acolho esse corpo inteiro – com suas faltas, culpas, histórias mal resolvidas – eu começo a experimentar uma presença mais firme em mim mesmo.
Autonomia afetiva não é um estado acabado, é um exercício diário. É dizer “sim” sem me violentar e “não” sem me culpar. É poder estar com o outro por escolha, e não por desespero. É permitir que o outro vá sem que eu precise me destruir para acompanhá-lo. É sentir dor, mas não implodir. É chorar, mas não se abandonar.
Talvez hoje, em vez de tapetes na rua, você possa imaginar um caminho dentro de você. Passo a passo, você se pergunta: “onde é que eu me traio?”, “onde eu me silenciei demais?”, “onde eu aceitei migalha achando que era banquete?”. Não para se julgar, mas para se encontrar.
Na coluna “autonomia afetiva”, é isso que eu quero caminhar com você: não te dizer como viver, mas te acompanhar na tarefa de se pertencer. Porque, no fim das contas, a maior independência afetiva é essa: poder amar o outro sem se perder de si.
Se esse tema te tocou e você sente que está na hora de reorganizar esse caminho interno, seguimos conversando. Você pode me escrever, compartilhar sua experiência, ou continuar me ouvindo por aqui, semana após semana. A ideia é simples: transformar nossa forma de se relacionar – consigo, com o outro e com o mundo – pela escuta, consciência e, quem sabe, alguns bons resultados na arte de viver consigo mesmo.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



