Por: Clariana Grosso
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Junho chega colorido por bandeirinhas, músicas tradicionais e pelo calor das fogueiras que iluminam as noites de inverno. Mais do que um elemento festivo, a fogueira carrega um simbolismo que atravessa gerações: ela aquece, reúne pessoas e, simbolicamente, transforma tudo aquilo que é lançado ao fogo. Talvez seja justamente por isso que ela possa nos inspirar a refletir sobre nossa vida emocional.
Em um tempo marcado pela velocidade, pelas cobranças constantes e pela busca incessante por desempenho, muitas pessoas carregam pesos que já não fazem sentido. Culpas antigas, exigências excessivas, ressentimentos, medos e expectativas irreais ocupam espaço psíquico e consomem energia emocional. Frequentemente, permanecemos ligados a essas cargas não porque elas nos façam bem, mas porque nos acostumamos a conviver com elas.
A psicanálise nos ensina que nem sempre estamos conscientes dos motivos que nos levam a repetir determinados padrões de sofrimento. Muitas vezes, insistimos em narrativas internas que reforçam sentimentos de inadequação, fracasso ou insuficiência. São vozes que se tornam familiares e que, por isso, acabam sendo aceitas como verdades absolutas. Entretanto, aquilo que é familiar nem sempre é saudável.
Nesse contexto, a fogueira junina pode ser vista como uma metáfora para os processos de transformação emocional. Não se trata de apagar a própria história ou negar experiências dolorosas, mas de reconhecer o que já cumpriu sua função e não precisa mais ser carregado. Há mágoas que não podem ser mudadas, mas que podem deixar de ocupar o centro da vida. Há culpas que nasceram de circunstâncias passadas e que já não correspondem à pessoa que somos hoje.
Perguntar-se “o que vale a pena deixar queimar?” é um exercício de autoconhecimento. Talvez seja a necessidade de agradar a todos. Talvez seja a cobrança por uma perfeição impossível. Talvez seja a comparação constante com outras pessoas ou a crença de que descansar é sinônimo de preguiça. Cada um possui seus próprios gravetos emocionais acumulados ao longo do caminho.
O fogo simbólico da transformação não destrói quem somos; ao contrário, ajuda a revelar o que permanece quando as camadas de exigências e defesas são retiradas. Assim como a madeira se transforma em calor e luz, experiências difíceis podem ser ressignificadas e convertidas em aprendizado, maturidade e crescimento.
As festividades juninas celebram encontros, ciclos e tradições. Talvez este seja um convite para que, além de acender fogueiras externas, possamos iluminar também nossos processos internos. Afinal, o equilíbrio emocional não nasce da ausência de conflitos, mas da capacidade de reconhecer o que merece ser preservado e o que já pode ser abandonado.
Que neste mês de junho cada pessoa encontre coragem para olhar para si mesma e escolher, com mais gentileza, aquilo que deseja alimentar e aquilo que está pronta para transformar em cinzas. Porque, às vezes, crescer emocionalmente significa exatamente isso: deixar queimar o que já não aquece.
Imagem criada com auxílio da IA
Sou Clariana Grosso, mãe e psicóloga clínica. Realizo atendimento psicoterapêutico há 19 anos. Estou me especializando na saúde Perinatal e na Parentalidade. Participo da Ong Maio Furta Cor – Sobre saúde mental materna. Se você busca autoconhecimento, equilíbrio emocional ou conhece alguma mulher que deseja atendimento, entre em contato através do whatsapp.



