A grande verdade sobre o luto simbólico é que ele dói tanto porque mexe direto na nossa identidade. Nós não choramos apenas o que foi embora; choramos por quem nós éramos naquela situação.
O fim de um casamento não é só a ausência do outro, é deixar de ser “esposa” ou “marido”.
Uma demissão não afeta só o bolso, mas balança o pilar de quem nos considerávamos profissionalmente.
Aposentar-se ou mudar de carreira traz o questionamento incômodo: “Se eu não sou mais isso, quem eu sou agora?”
Quando o cenário da nossa vida muda bruscamente, o espelho quebra. O luto simbólico é o processo doloroso de recolher esses cacos e tentar entender qual é a nossa nova face. É o luto pela versão de nós mesmos que ficou para trás.
Mudar dói (mesmo quando a mudança é para melhor)
Existe um mito de que só sofremos por coisas ruins. Mas a transição de vida, mesmo a desejada, exige uma perda. Passar na faculdade, casar, ter um filho ou mudar para a casa dos sonhos são vitórias, mas que exigem a morte de uma fase anterior. Para o novo entrar, o velho precisa ceder espaço. E essa despedida do passado, por mais saudável que seja, gera saudade e estranhamento.
Você chora pelo que acabou. Pelo que não foi vivido. Pelo que imaginou que seria e não foi. E o pior: muitas vezes você mesmo se pune, achando que “isso é frescura” ou que “deveria estar grato por estar vivo”. Só que a mente humana não funciona no botão do automático.
A boa notícia? Isso é absolutamente normal. Você não está fraco, nem maluco, nem sendo dramático. Você está sendo humano e digerindo a sua própria história.
Dando licença para sentir
Se você está passando por uma perda invisível, aqui vão alguns passos essenciais de cuidado:
Valide a sua dor: Não minimize o seu sofrimento comparando-o com de alguém. Uma perda é uma perda.
Acolha a sua nova versão: Entenda que é normal se sentir “estranho” dentro de si mesmo por um tempo. Sua identidade está se reorganizando.
Fale sobre isso: Busque redes de apoio, amigos que saibam ouvir sem julgar ou o suporte de um profissional da saúde mental.
Não existe prazo de validade para o coração se reorganizar, mas lembre-se: só porque a dor chegou, não significa que ela vai morar para sempre com você. Ela está ali apenas sinalizando que algo importante mudou.
Para refletir:
Se a gente só se permite chorar o que os outros conseguem enxergar, quantas feridas internas nós estamos deixando de curar por pura falta de licença para sentir? Quem é você depois da sua última grande perda?
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
OLIVEIRA, N. S.; SILVA, R. F. Transições de vida e a dor da descontinuidade: o luto simbólico e a reconstrução da identidade. Análise Psicológica, v. 40, n. 1, p. 112-125, 2023.
SANTOS, L. R.; LIMA, M. A. O luto para além da morte material: reflexões sobre as perdas simbólicas na contemporaneidade. Revista Psicologia e Saúde, v. 14, n. 2, p. 45-58, 2022.
MINI CURRÍCULO
João Costa Bezerra
Psicoterapeuta especializado em saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
Atua com TCC, DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica, ajudando pessoas a desenvolverem regulação emocional, flexibilidade e autonomia para lidar com seus desafios psicológicos.
Para mais informações: (11) 98436-1978



