Por Ramon Henrique
Se você entra numa roda de gente LGBTQIA+ e não entende metade do que tão falando, calma, é normal.
A gente inventou um idioma próprio porque por muito tempo a gente precisou se reconhecer no meio da multidão sem levantar suspeita.
E depois a gente continuou inventando porque é divertido, porque é nosso, porque rir da própria dor é uma forma de sobreviver.
Tudo começa com “amiga”. Amiga pode ser homem, mulher, hétero, cachorro. “Amiga, babado”. “Amiga, corre”. “Amiga, tu viu?”. é vírgula, é ponto de exclamação, é terapia em grupo. e quando o babado é grande mesmo a gente solta o clássico “eita como pode”.
Aí vem o “lacrou”. Lacrar é ganhar, é responder perfeito, é destruir no argumento, é chegar na festa e todo mundo olhar. “Ela lacrou”. e tem o “arrasou” também, que é a versão mais leve.
Se lacrar é 10, arrasar é 8.5. E se a pessoa errou feio a gente fala “que mico” ou “passou vergonha” e já puxa o print pra mandar no grupo.
“poc” é a sigla de “pessoa óbvia colorida”, nasceu pra gente falar de nós mesmos sem os héteros entenderem na época.
Hoje virou carinho. “Minha poc”. “Somos todas pocs”. E tem a “bicha” que a gente reapropriou, o que era xingamento virou nome, “E aí bicha”. “Bicha, tá tudo?” É intimidade.
“Bofe”, “gato”, “padrão”, “twink”, “urso”. Isso é cardápio de app. Padrão é o malhado da academia, mucilo é o magrinho novinho, urso é o barbudo peludo, e se não for nenhum dos três a gente inventa: “daddy”, “famosinho”, “sumido”.
E os memes, ai os memes, é print de tuíte, é vídeo da Gretchen, é Pabllo Vittar caindo e levantando, é Gloria Groove rebolando, é “já deu né” da Lorelay, é a foto da Anitta com cara de deboche. É “mulher, tu é barraqueira” e “fala tu”.
Meme LGBTQIA+ não explica, ele acontece. Você manda no grupo às 3 da manhã e todo mundo responde com 7 prints de risada.
A gente também ama dar nome pras coisas, “Heteronormativo” virou “hétero top”, “Sair do armário” virou “botar pra fora”, “Ghostear” é sumir, “Ficar” é ficar, “Namorar” é raro, é evento.
O mais bonito disso tudo é que essa linguagem cria casa, quando você entende a piada, quando você responde com o meme certo, quando você solta um “lacrou amiga” na hora certa, você diz: eu sou daqui, eu te vejo,a gente é igual.
Claro que tem gente de fora que acha exagero, que acha “muita frescura”, mas é que eles não passaram a vida inteira ouvindo que não podiam falar do jeito deles, então agora a gente fala alto, fala colorido, fala com glitter na frase.
No fim, meme e gíria LGBTQIA+ é isso: código, escudo e abraço, é rir pra não chorar, é marcar território com humor, é dizer “a gente tá aqui” sem precisar gritar.
E se você não entendeu alguma, pergunta, a gente explica e já te chama pra dentro do grupo.
Porque no fim toda poc merece um “amiga, chega mais”.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



