Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Vou te contar uma coisa que talvez você já tenha sentido na pele, mesmo sem nunca ter fugido de uma guerra: é possível morar em outro país, ter um visto, um emprego, um endereço fixo… e ainda assim se sentir um pouco refugiado por dentro. Como se a sua casa tivesse ficado num tempo e num lugar que já não existem mais.
Quando falamos de refugiados e deslocados, muitas vezes pensamos em estatísticas, fronteiras, conflitos. Mas, por trás de cada número, existe alguém tentando fazer algo muito básico e ao mesmo tempo enorme: reconstruir uma vida, um sentido, um “nós”. E é aqui que entra a autonomia afetiva, não como uma independência fria, do tipo “não preciso de ninguém”, mas como a capacidade de reconhecer as próprias emoções, buscar apoio e, sobretudo, construir relações de confiança em meio ao desconhecido.
Pense em alguém que chega a um país novo sem dominar a língua, sem entender os códigos sociais, sem família por perto. Cada tarefa simples, pegar um ônibus, ir ao mercado, pedir ajuda, vira um pequeno teste emocional. Há vergonha, medo de errar, medo de não ser compreendido, medo de ser rejeitado. O corpo carrega uma história que não se conta só com palavras: perdas, rupturas, despedidas abruptas, saudades que não cabem em foto nenhuma.
Mas, curiosamente, parte dessa experiência emocional também é vivida por quem se muda “por escolha”: por trabalho, estudo, amor. Você pode ter passaporte, contrato, visto carimbado… e mesmo assim sentir um estranhamento fundo, um desenraizamento silencioso. Às vezes, ao olhar para o próprio reflexo, a pergunta surge: “Onde é que eu pertenço, afinal?”
No Dia Mundial do Refugiado, a homenagem mais sincera que podemos fazer talvez seja essa: reconhecer que, em algum nível, conhecer a dor de se sentir deslocado nos aproxima deles e não nos afasta. Não para comparar sofrimentos, porque a violência e o risco de vida que muitos refugiados enfrentam não se relativiza. Mas para abrir um lugar interno de empatia verdadeira: “Eu não sei o que você viveu, mas sei um pouco do que é não se sentir em casa em lugar nenhum. E, por isso, estou disposto a escutar.”
A autonomia afetiva, nesse contexto, não é um luxo; é uma ferramenta de sobrevivência. Para quem precisa recomeçar longe de tudo o que conhecia, ela se expressa em gestos simples e profundos: aprender a pedir ajuda sem se sentir menos por isso; permitir-se chorar pela terra deixada para trás; acolher a própria raiva e o próprio medo sem se julgar fraco; aceitar que criar novas raízes leva tempo e não acontece de um dia para o outro.
Mas ela também se manifesta na capacidade de construir redes de apoio. Porque ninguém atravessa um deslocamento forçado sozinho. Uma rede de apoio não é apenas uma instituição ou uma ONG, embora elas sejam fundamentais. Rede de apoio é também a vizinha que pergunta “você está bem?”, o colega de trabalho que fala mais devagar para ser compreendido, a pessoa que se oferece para traduzir um documento, o grupo que convida para um café e, por algumas horas, suspende o peso da solidão.
E você, talvez morando em outro país, ou pensando em morar, ou simplesmente se sentindo estrangeiro dentro da própria cidade, também precisa e merece essa rede. Autonomia afetiva não é isolar-se, mas saber escolher com quem dividir a própria vulnerabilidade. É aprender a reconhecer quem oferece presença sincera, e não apenas curiosidade passageira. É confiar, pouco a pouco, que existem laços possíveis em qualquer lugar do mundo.
Talvez a pergunta então não seja só “como acolher refugiados?”, mas também: “como podemos, juntos, criar espaços em que ninguém precise se sentir descartável, invisível, silencioso demais para ser ouvido?”. Às vezes isso começa com atitudes muito pequenas: evitar piadas sobre sotaques, não tratar o outro apenas como “a história triste” que ouvimos uma vez, perguntar o nome, aprender a pronunciá-lo com cuidado. Convidar para sentar à mesa, perguntar da cultura, da comida, da música, sem ficar perplexo, apenas por genuína curiosidade humana.
Você não precisa trabalhar em uma organização internacional para fazer diferença. Pode apoiar projetos sérios de acolhimento, doar recursos, tempo, conhecimento. Pode ser aquela pessoa que oferece escuta sem interrogatório, sem exigir que o outro reviva traumas para “justificar” a própria condição. Pode ser o elo entre alguém recém-chegado e um serviço que ele nem sabia que existia.
No fundo, essa é a beleza e o desafio da autonomia afetiva em novos contextos: reconhecer que precisamos dos outros para continuar sendo nós mesmos. Que a força não está em endurecer, mas em permanecer sensível sem desmoronar. Que criar confiança em terra estrangeira, seja essa terra um novo país ou um novo momento da sua vida é um exercício diário de coragem.
No Dia Mundial do Refugiado, talvez possamos fazer este compromisso silencioso: olhar para quem chega não como “estranho”, mas como alguém que carrega consigo um mundo inteiro, prestes a se encontrar, aos poucos, com o nosso. E entender que, quando oferecemos acolhimento, não estamos apenas ajudando o outro a se reconstruir; estamos, também, reconstruindo em nós a capacidade de amar, confiar e pertencer.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



