Por Érika Ricci
Psicóloga Clínica Infantil e Adolescentes
As férias escolares costumam despertar sentimentos muito diferentes em cada casa… Para as crianças, elas representam liberdade, a expectativa de brincar mais, dormir um pouco até mais tarde, estar perto da família e viver dias diferentes da rotina escolar.
Para muitos adultos, porém, elas chegam acompanhadas de outra sensação: preocupação.
“Como vou entretê-lo durante todo esse tempo?”
“O que vou fazer para ele não ficar no celular?”
“Preciso preencher os dias com alguma atividade.”
Sem perceber, muitos pais passam boa parte das férias tentando resolver um problema que, na verdade, não deveria existir. E é justamente aí que mora uma reflexão importante.
As crianças aprendem muito mais observando os nossos comportamentos do que ouvindo os nossos discursos. Quando os adultos recebem as férias com ansiedade, reclamações ou a sensação de que “agora vai ficar difícil”, acabam transmitindo uma mensagem silenciosa: as férias são um problema que precisa ser administrado.
Pode parecer um detalhe, mas não é.
A forma como os pais vivem as experiências acaba ensinando aos filhos como eles também devem enxergar essas experiências. Se o descanso é tratado como um transtorno, a criança aprende que parar é errado.
Se o tempo livre parece um vazio que precisa ser preenchido a qualquer custo, ela aprende que não pode simplesmente brincar, imaginar ou criar.
Se estar mais tempo em casa gera irritação, ela também pode concluir que sua presença representa um peso. Talvez seja por isso que tantas crianças estejam perdendo algo essencial para o desenvolvimento: o direito de simplesmente ser criança.
Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade desde muito cedo. Sem perceber, transformamos até as férias em uma agenda de compromissos. Colônias, cursos, oficinas, passeios, viagens, atividades… Tudo isso pode ser maravilhoso. O problema não está nas experiências, mas na necessidade de preencher cada espaço vazio.
O cérebro infantil também precisa descansar. E descansar não significa ficar horas diante das telas, descansar significa ter tempo para inventar uma brincadeira, montar uma cabana na sala, desenhar sem objetivo, cozinhar com os pais, andar de bicicleta, visitar os avós, jogar cartas, olhar as nuvens ou simplesmente conversar sem que alguém esteja olhando para o relógio.
Existe algo muito precioso que nasce quando a criança experimenta momentos de ócio saudável: criatividade, autonomia, resolução de problemas, imaginação e tolerância à frustração. O tédio, tão combatido pelos adultos, muitas vezes é o ponto de partida para grandes descobertas.
Nem toda família poderá viajar nestas férias. E isso não significa oferecer menos aos filhos. Na verdade, as lembranças mais profundas da infância quase nunca estão ligadas ao lugar onde estivemos, mas à forma como nos sentimos enquanto estávamos juntos.
Anos depois, dificilmente uma criança lembrará de todos os passeios que fez em um determinado mês de julho. Mas ela poderá se lembrar da noite em que todos fizeram pipoca para assistir a um filme na sala, da guerra de travesseiros antes de dormir, da receita que preparou com os pais, das risadas durante um jogo de cartas ou da conversa que aconteceu sem pressa no fim da tarde.
Como psicóloga infantil, vejo diariamente crianças que chegam ao consultório emocionalmente cansadas. Não apenas pela escola ou pelas atividades, mas porque vivem em um ritmo constante de estímulos e compromissos. Elas também precisam de pausas.
Talvez, antes de planejar as férias dos nossos filhos, devêssemos planejar a nossa presença com mais leveza. Porque, no fim das contas, eles não aprenderão sobre as férias pelo número de atividades que realizaram.
Aprenderão pelo clima que viveram dentro de casa.
Se encontrarem pais ansiosos, ocupados e preocupados em preencher cada minuto, entenderão que descansar é um problema.
Mas, se encontrarem pais disponíveis para rir, brincar, conversar e desacelerar, levarão consigo uma das lições mais importantes da infância: que o descanso também faz parte de uma vida saudável e que estar junto pode ser o melhor lugar para se estar.
Érika Ricci é psicóloga clínica, com atuação em psicoterapia infantil, juvenil e orientação familiar. Diretora da clínica Jardim da Consciência, realiza acompanhamento psicológico com foco no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, além de apoio às famílias no processo educativo.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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