Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Uma reflexão à luz da terapia de casal e das contribuições de Lise Bourbeau
Poucas experiências humanas são tão devastadoras quanto descobrir que fomos traídos por quem amamos. A infidelidade não fere apenas o presente do relacionamento. Ela desperta ecos antigos, reabre cicatrizes emocionais e toca vulnerabilidades que, muitas vezes, permaneciam adormecidas.
É nesse ponto que as contribuições de Lise Bourbeau, em seu livro As Cinco Feridas que Impedem o Ser Humano de Ser Ele Mesmo, oferecem uma perspectiva interessante para compreender por que algumas pessoas sofrem de maneira tão intensa diante da traição.
O que a traição realmente machuca?
Quando um paciente chega ao consultório dizendo: “Ele me traiu” ou “Ela me enganou”, o terapeuta experiente sabe que a dor narrada é apenas a parte visível da história.
Segundo Bourbeau, todos carregamos feridas emocionais construídas ao longo do desenvolvimento, ao longo da nossa história: rejeição, abandono, humilhação, traição e injustiça. Para lidar com elas, desenvolvemos mecanismos de proteção — as chamadas “máscaras” — que procuram evitar que a dor seja revivida.
Independentemente da forma como cada abordagem psicológica compreende essas feridas, é inegável que a traição amorosa costuma despertar experiências emocionais muito anteriores ao episódio da infidelidade. Muitas pessoas não sofrem apenas pelo que aconteceu no relacionamento atual, mas também porque a experiência desperta sentimentos antigos de desvalor, insegurança e medo da perda.
As feridas que a traição pode despertar
A ferida da rejeição sussurra: “Eu não fui suficiente. Por isso ele ou ela escolheu outra pessoa.” Quem vive essa experiência tende a recolher-se, sentir-se invisível e questionar o próprio valor.
A ferida do abandono grita: “Eu sabia que um dia ficaria sozinho.”Surge o medo intenso da perda, acompanhado da necessidade de manter o outro por perto a qualquer custo.
A ferida da humilhação faz nascer a vergonha. “O que vão pensar de mim?” A preocupação deixa de ser apenas a ruptura e passa a ser a exposição pública da dor.
A ferida da traição, descrita por Bourbeau como relacionada à quebra da confiança, desperta controle, vigilância, raiva e, muitas vezes, desejo de vingança. “Nunca mais vou confiar em ninguém.”
Já a ferida da injustiça procura explicações. “Eu fiz tudo certo. Isso não deveria acontecer comigo.” A pessoa tenta compreender racionalmente aquilo que, antes de tudo, precisa ser vivido emocionalmente.
O olhar da terapia de casal
Na terapia sistêmica, compreendemos que a infidelidade raramente pode ser explicada por um único fator. Ela costuma surgir dentro de uma dinâmica relacional complexa, construída ao longo do tempo. Isso não diminui a responsabilidade de quem traiu, nem relativiza a dor de quem foi traído. Apenas amplia o olhar para tudo o que precisa ser compreendido e cuidado.
Quando o casal decide reconstruir a relação, três movimentos tornam-se fundamentais.
O primeiro é acolher a dor sem pressa de superá-la. A tentativa de “virar a página” rapidamente costuma impedir a elaboração do sofrimento. A confiança não se reconstrói pela negação da dor, mas pela disposição de atravessá-la.
O segundo é compreender quais histórias pessoais foram reativadas em cada parceiro. Nesse processo, a proposta de Bourbeau sobre as máscaras pode favorecer importantes reflexões. Muitas vezes, a intensidade da reação não está relacionada apenas ao fato ocorrido, mas também às experiências emocionais que esse acontecimento fez ressurgir.
O terceiro movimento consiste em reconstruir a confiança sobre novas bases. O relacionamento anterior à traição deixou de existir. O desafio não é recuperar exatamente o que havia antes, mas construir uma nova forma de vínculo, sustentada por mais autenticidade, responsabilidade emocional e diálogo.
O caminho da cura
Lise Bourbeau afirma que as feridas não desaparecem; elas deixam de comandar nossa vida quando passam a ser reconhecidas e acolhidas.
Na prática clínica, observo que a traição pode representar um dos momentos mais dolorosos da história de um casal, mas também pode tornar-se um poderoso convite ao autoconhecimento. Não porque a dor seja desejável, nem porque a infidelidade possa ser romantizada, mas porque ela frequentemente obriga cada pessoa a olhar para si mesma com uma profundidade que dificilmente seria alcançada em tempos de estabilidade.
É importante lembrar que uma traição, por si só, não determina o fim de um relacionamento. Embora a confiança seja profundamente abalada, a ruptura não é o único caminho possível. Quando ambos os parceiros desejam compreender o que aconteceu, assumir suas responsabilidades e reconstruir a relação de forma consciente, a crise pode tornar-se um dos maiores momentos de amadurecimento da vida a dois.
Reconstruir um relacionamento depois da infidelidade exige muito mais do que perdão. Exige coragem para enfrentar verdades difíceis, disposição para mudar padrões antigos, humildade para reconhecer as próprias fragilidades e amor suficiente para construir uma nova história. Permanecer juntos por medo nunca fortalece um casal; permanecer porque ambos escolheram crescer juntos é uma das mais genuínas demonstrações de coragem, compromisso e amor.
Na terapia de casal, o objetivo nem sempre é preservar o casamento. O propósito maior é promover consciência, favorecer diálogos mais honestos e ajudar cada pessoa a desenvolver relações mais saudáveis consigo mesma e com o outro. Em alguns casos, isso significará uma separação respeitosa. Em muitos outros, significará a construção de um relacionamento muito mais sólido do que aquele que existia antes da crise.
Na metodologia A Rota da Cura®, costumo dizer que toda crise carrega duas possibilidades: permanecer preso à dor ou permitir que ela revele aquilo que precisa ser transformado. A traição pode quebrar a confiança, mas não precisa destruir o amor. Quando existe o desejo sincero de compreender, reparar e recomeçar, ela pode tornar-se o ponto de partida para um vínculo mais maduro, mais verdadeiro e mais consciente.
A dor da traição, quando atravessada com responsabilidade, diálogo e acolhimento, deixa de ser apenas uma cicatriz. Ela transforma-se em um mapa. E todo mapa, quando percorrido com coragem, pode nos conduzir de volta ao lugar mais importante de todos: nós mesmos — e, muitas vezes, também um ao outro.
Sobre a autora: Bia Rossatti é terapeuta familiar e de casais, especialista em relacionamentos, escritora e palestrante. Criadora do método A Rota da Cura®, dedica-se ao acompanhamento de pessoas e casais que enfrentam crises conjugais, separação, divórcio e os desafios do recomeço, promovendo o desenvolvimento de relações mais conscientes e saudáveis.
É autora do livro Depois do Divórcio – A Rota da Cura – Como voltar a acreditar em si mesma, recuperar sua segurança e reconstruir uma vida feliz após o divórcio, obra que reúne reflexões e ferramentas práticas para quem busca transformar a dor da ruptura em um caminho de crescimento e reconstrução pessoal.
Atende presencialmente e on-line, oferecendo terapia breve e focada para casais, famílias e pessoas que desejam fortalecer seus relacionamentos ou reconstruir suas vidas após momentos de crise.
Saiba mais:
• Site: www.biarossterapeuta.com.br
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