*Por Carla Perin
@cacaperin
Um olhar sistêmico sobre os vínculos e o lugar dos animais na sociedade contemporânea
“Nenhum animal chega a uma família pensando que um dia poderá ser descartado. Ele apenas acredita que, finalmente, encontrou o seu lugar.”
Há alguns anos, a maioria dos cães vivia nos quintais. Os gatos eram vistos como animais independentes. Hoje, felizmente, eles conquistaram um novo espaço: entraram em nossas casas e, principalmente, em nossos corações, passaram a ser chamados de filhos, companheiros, membros da família multiespécie. Esse movimento representa um avanço na forma como enxergamos os animais, eles deixaram de ser apenas propriedade para serem reconhecidos como seres sencientes, capazes de sentir medo, alegria, dor e afeto, mas, ao lado dessa conquista, surge um fenômeno que preocupa profundamente quem trabalha com Medicina Veterinária, nunca vimos tantos animais sendo adquiridos, e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantos animais sendo devolvidos, trocados, abandonados ou entregues porque “já não se encaixam mais” na rotina da família .Na prática clínica, essa realidade aparece todos os dias, filhotes comprados por impulso, animais adotados movidos pela emoção do momento, presentes oferecidos em datas comemorativas, e, algum tempo depois, surgem frases que doem: “Ele cresceu demais.” “Não tenho mais tempo.” “Meu filho perdeu o interesse.” “Mudamos de casa. “”Agora temos um bebê.” “Ele destrói tudo.” “Não era o que imaginávamos. O que está acontecendo com os nossos vínculos?
Quando o animal recebe uma missão impossível
Na visão sistêmica, toda relação nasce de um movimento de pertencimento, quando um animal entra em uma família, ele passa a fazer parte daquele sistema, mas, em muitos casos, sua chegada é acompanhada de expectativas que vão muito além daquilo que um animal pode oferecer, ele chega para aliviar a solidão, para salvar um casamento, para diminuir a ansiedade, para preencher o vazio deixado por um luto, para fazer companhia a alguém que sofre, tudo isso pode acontecer naturalmente como consequência do vínculo. mas existe uma diferença importante entre compartilhar a vida com um animal e entregar a ele a responsabilidade de resolver dores que pertencem aos seres humanos, nenhum cão ou gato deveria carregar essa missão.
A cultura do descarte também chegou aos vínculos
Vivemos em uma sociedade que aprende cada vez mais, a substituir se objetos, empregos e relacionamentos e infelizmente, em alguns casos, também se trocam animais, quando o vínculo deixa de produzir satisfação imediata, surge a ideia de que basta recomeçar com outro filhote, outra raça, outro gato, como se a mudança do animal resolvesse aquilo que permanece dentro da pessoa. Na visão sistêmica, essa lógica nos convida a uma reflexão delicada, será que estamos descartando os animais, ou estamos tentando escapar das nossas próprias dores?
Pertencimento não pode depender da conveniência
Bert Berlinger ensinava que todo aquele que entra em um sistema adquire o direito de pertencer. Quando um cão ou um gato passa a fazer parte de uma família, ele cria vínculos, reconhece vozes, cheiros, rotinas, pessoas, ele não entende contratos, não compreende justificativas. ele apenas acredita que encontrou um lar. Por isso, quando é deixado para trás, não perde apenas uma casa. Perde referências, segurança e pertencimento.
Um convite à consciência
Esta reflexão não pretende julgar famílias que, diante de circunstâncias extremas, precisaram encontrar um novo lar para um animal. Existem situações em que essa decisão é tomada por responsabilidade e visando o bem-estar do próprio pet. Mas a realidade que observamos hoje nos convida a pensar antes da escolha, um animal não é um presente. Não é uma solução para a solidão. Não é um remédio para a ansiedade. Não é um objeto de consumo. É uma vida. E toda vida merece ser acolhida com responsabilidade. Talvez a Medicina Veterinária Sistêmica nos ensine justamente isso: Antes de perguntar “eu quero um animal?”, talvez devêssemos perguntar “Estou disposto a oferecer pertencimento durante toda a vida dele? “Porque o verdadeiro amor não dura apenas enquanto é fácil. O verdadeiro amor permanece quando a novidade termina, quando surgem desafios e quando o vínculo deixa de ser perfeito para se tornar real.
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



