Por Eneida Roberta Bonanza
Há algo que acontece a cada quatro anos e que nenhuma terapia, nenhum medicamento e nenhuma campanha publicitária conseguem reproduzir na mesma intensidade.
Um país inteiro começa a respirar no mesmo ritmo.
Durante noventa minutos, pessoas que mal se conhecem se abraçam. Famílias que quase não conversam sentam na mesma sala. O desconhecido vira companheiro. O vizinho vira parceiro. O Brasil inteiro passa a falar a mesma língua.
A linguagem da esperança.
E talvez seja justamente isso que explique por que a Copa do Mundo mexe tanto conosco.
Quem estava desanimado sorri.
Quem estava sobrecarregado esquece, por alguns instantes, o peso da rotina.
Quem andava sem assunto encontra um.
Quem perdeu a capacidade de acreditar volta a fazer planos para o próximo jogo.
É curioso perceber como um simples gol consegue abrir espaço dentro de alguém que já não encontrava motivos para celebrar.
Não porque o futebol resolva a vida.
Mas porque ele nos lembra de uma capacidade humana que às vezes adormece: a capacidade de esperar que amanhã possa ser melhor.
Existe algo profundamente terapêutico nisso.
A esperança é uma das emoções mais restauradoras do cérebro humano.
Quando acreditamos que algo bom pode acontecer, nosso organismo muda. A atenção se amplia, a motivação aumenta, a disposição reaparece. Até pessoas naturalmente pessimistas se pegam fazendo contas, imaginando possibilidades, acreditando que “dessa vez vai”.
A esperança é contagiosa.
E emoções também são.
Durante uma Copa, vemos um verdadeiro fenômeno coletivo acontecendo. O entusiasmo compartilhado aumenta a sensação de pertencimento. O cérebro libera mais dopamina, relacionada à motivação e ao prazer. A expectativa ativa circuitos ligados à recompensa. As comemorações elevam a liberação de endorfinas e ocitocina, hormônios associados ao vínculo, ao bem-estar e à conexão entre as pessoas.
Até o coração participa desse espetáculo.
Os momentos decisivos elevam a adrenalina, aceleram os batimentos, aumentam a atenção e fazem o corpo inteiro entrar em estado de alerta. É por isso que um pênalti pode provocar mãos suadas, frio na barriga e a sensação de que estamos dentro do campo.
O futebol não acontece apenas na televisão.
Ele acontece dentro da nossa neuroquímica.
Talvez seja por isso que tanta gente diga que “a Copa muda o clima do país”.
Na verdade, ela muda o clima interno das pessoas.
E isso tem valor.
Porque, por alguns dias, lembramos que ainda sabemos vibrar, acreditar, torcer, sorrir, abraçar desconhecidos e sentir orgulho de pertencer a algo maior do que nós mesmos.
O cuidado está em não deixar que essa esperança termine junto com o campeonato.
Seria bonito se aprendêssemos com a Copa que a vida também acontece em etapas. Nem todo jogo é vencido no primeiro tempo. Há partidas difíceis, momentos de pressão, gols inesperados e viradas que ninguém imaginava.
A saúde emocional talvez dependa justamente disso.
Continuar acreditando mesmo quando o placar ainda não nos favorece.
Porque o verdadeiro campeonato nunca foi apenas o que acontece dentro das quatro linhas.
Ele acontece todos os dias, silenciosamente, dentro de cada um de nós.
Depois que a Copa acabar, leve para a sua vida aquilo que ela despertou em você: a coragem de continuar acreditando.
Eneida Roberta Bonanza
Fisioterapeuta • Pós-graduada em Medicina Tradicional Chinesa, Neurociência e Neuropsicologia • Especialista em Microfisioterapia, Constelação Familiar, EFT, PNL, Hipnose e Dermoneuromodulação • Criadora da TICS – Terapia Integrativa de Conexão Sistêmica • CEO da CHER – Clínica de Saúde Humanizada • Escritora e palestrante internacional.



