Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Julho sempre me parece um mês dividido ao meio. Para uns, ele chega com a promessa do recesso, da mala no canto, do café tomado mais devagar, da sensação rara de que o corpo pode finalmente acompanhar o relógio da alma. Para outros, ele vem como uma maré alta: mensagens que não param, demandas que se acumulam, prazos que não entendem férias, urgências que se vestem de normalidade. E é nesse contraste que eu mais percebo uma verdade silenciosa: descansar, hoje, virou quase um ato de resistência.
Eu vejo isso nas coisas pequenas. Na pessoa que senta à mesa do almoço com a família e, antes da primeira garfada, já olha o celular porque “é só uma resposta rápida”. Na criança que fala com alguém que está presente fisicamente, mas com a atenção presa em outra tela. Naquele momento em que o corpo finalmente encosta no sofá, mas a mente continua de pé, revisando pendências, antecipando pedidos, ensaiando desculpas. O trabalho atravessa o descanso de um jeito quase educado, quase invisível. Ele não arromba a porta. Às vezes, ele entra em silêncio e senta na sala como se sempre tivesse morado ali.
E eu não digo isso para demonizar o trabalho. Há dignidade no que fazemos, há sentido em construir, entregar, sustentar. O problema começa quando a vida íntima vira apenas um intervalo entre uma exigência e outra. Quando o descanso deixa de ser um lugar e passa a ser uma pausa culpada. Quando a pessoa não consegue mais estar inteira nem no esforço, nem no repouso. Ela trabalha cansada e descansa com pressa. E, aos poucos, vai perdendo a delicadeza de escutar a própria necessidade.
Eu já observei que muita gente não teme o excesso de trabalho em si. O que assusta, no fundo, é o vazio que aparece quando o barulho cessa. Porque, sem o fluxo constante de tarefas, sobra o encontro com aquilo que foi sendo adiado: o cansaço acumulado, a tristeza miúda, a saudade de si, a sensação de que tudo o que é importante está sempre para depois. E aí o descanso incomoda, porque ele não serve só para recuperar energia. Ele também devolve presença. Ele faz a gente perceber o quanto estava se abandonando em nome da obrigação.
Talvez seja por isso que eu pense tanto em limites emocionais quando julho chega. Não como uma cerca dura, nem como um gesto frio, mas como uma forma de preservar o que em mim precisa continuar vivo. Limite, para mim, não é distância vazia. É cuidado. É a decisão de não responder tudo na hora. É aceitar que nem toda urgência merece o meu corpo inteiro. É reconhecer que eu posso ser comprometido sem ser devorado.
A virada, para mim, acontece quando eu deixo de perguntar apenas “o que o trabalho quer de mim?” e começo a perguntar “o que eu estou oferecendo sem perceber?”. Porque muitas vezes não é o excesso externo que nos destrói primeiro. É a forma como vamos cedendo, aos poucos, o nosso tempo íntimo, a nossa escuta, o nosso descanso, até não restar mais espaço para respirar por dentro. E é aí que a autonomia afetiva ganha sentido: não como um discurso bonito, mas como a coragem de permanecer comigo mesmo enquanto o mundo tenta me puxar para fora o tempo todo.
Eu gosto de pensar que descansar bem não é parar de viver. É voltar a habitar a própria vida com mais verdade. É sentar à mesa sem culpa. É dormir sem o corpo em alerta. É olhar o céu de julho e não sentir que estou atrasado para ser alguém. Talvez o descanso não precise pedir desculpas para existir. Talvez ele seja, justamente, a forma mais discreta e mais firme de dizer: eu também sou meu lugar.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



